[por paulo silva junior]

Depois da derrota brasileira na Copa de 1966, simbolizada pela caça do zagueiro português Moraes ao camisa 10 já bicampeão mundial Pelé, o consenso era de que a seleção fora batida por um novo modelo de jogo, chamado genericamente de futebol-força. Técnicos e preparadores físicos cravavam que, caso o Brasil desejasse retomar o caminho de títulos interrompido na Inglaterra, era necessária uma adequação ao esporte de vigor físico demonstrado pelos europeus. Esse novo conceito – o protagonismo dos treinos sem bola, a total atenção às possibilidades do corpo do atleta e a ideia de que, sim, uma postura mais viril era agora capaz de vencer o então futebol-arte – era introduzido à cultura local, à natural identidade futebolística do país.
Começa então um debate muito bem colocado no obrigatório Afonsinho & Edmundo – A Rebeldia no Futebol Brasileiro, livro do professor José Paulo Florenzano. A partir de uma frase do jornalista Ruy Castro – “A Copa de 1966, vencida pela Inglaterra, evaporou-se da memória brasileira” -, o autor da obra responde: “ledo engano, ela abriria uma ferida que tão cedo não voltaria a cicatrizar e, principalmente, demarcaria a ruptura a partir da qual todo um conjunto de práticas discursivas e não discursivas reordenaria o campo de forças do futebol brasileiro, situando-o dentro do quadro histórico e cultural da modernização desse esporte no país”.
Estava posto: se até Pelé chegou a dizer que se aposentaria das Copas para preservar seu preparo físico – voltou, e como, com título em 1970 – , a comunidade do futebol passava a se europeizar, digamos, entender o modelo de fabricação de jogadores com as melhores condições para competir. No contraponto estava Nelson Rodrigues, como na coluna publicada n’O Globo naquele pós-66.
“Imaginemos um futebol órfão de pelés e manés. Uma docilidade unânime, e repito: docilidade de focas amestradas. Os dois times não fazem a menor concessão à originalidade, nenhuma concessão à arte, nenhuma concessão à beleza. Se alguém esboçar um esgar de autonomia, será expulso, a pauladas. Em campo, as bordas adversárias varando o campo em correrias brutais. Ora, para impor tal jogo, seria necessário fazer duas coisas – primeiro, mudar o brasileiro por dentro; segundo, mudar o brasileiro por fora.”
Em outra oportunidade, falando mais precisamente do que sentia naquela ressaca da perda do tricampeonato na Inglaterra, escreveu: “Faço uma casta e singela constatação. Ponham um inglês na lua. E na árida paisagem lunar, ele continuará mais inglês do que nunca. Sua primeira providência será anexar a própria lua ao império britânico. Mas o subdesenvolvido faz um imperialismo às avessas. Vai ao estrangeiro e, em vez de conquistá-lo, ele se entrega e se declara colônia. É o que está acontecendo nas nossas barbas estarrecidas. O cronista que foi à Inglaterra (salvo raríssimas exceções) quer apenas isso: fazer do futebol brasileiro uma miserável colônia do futebol inglês. Mas pergunto aos paralelepípedos da Boca do Mato: tínhamos alguma coisa que aprender com o inglês?”
Era um exagerado o Nelson, claro. Usava do dramático para descrever o jogo, até porque não enxergava direito e tinha dificuldade em diferenciar os jogadores das cabines de imprensa do Maracanã. Onde já se viu um cronista esportivo que precisa de alguém para soprar o que está acontecendo em campo ser um dos mais importantes de toda uma geração de ouro de futebol? Pois é.
Foi Nelson quem, todos sabem, criou o “complexo de vira-latas”, a ideia de inferioridade do povo e do jogador brasileiro que atormentou a seleção da traumática derrota na final da Copa de 1950 ao primeiro título mundial em 1958. No pós-66, foi Nelson quem questionou esse tal do futebol-força, afinal, voltaríamos a colocar nosso jogo como algo abaixo do que a desenvolvida Europa propunha? Não para ele.
“Eu não queria concluir sem falar de um entendido que foi ao México expressamente para admirar o futebol europeu em geral e o inglês em particular. Em duas colunas, de alto a baixo, só fala dos ingleses, só admira os ingleses, só exalta os ingleses. Cheguei à última linha certo de que o Brasil lá não compareceu. E, então, a Inglaterra jogou consigo mesma, para si mesma, defendeu-se a si mesma e atacou-se a si mesma. Perguntará o leitor, que é de uma espessa ingenuidade: E o gol do Brasil?”, escreve Nelson após a vitória brasileira sobre os ingleses na Copa de 70, para depois descrever o gol de Jairzinho e concluir: “O ilustre colega não admira esse lance genial. Em compensação, porém, baba com os chuveirinhos da Inglaterra. Aí está: a grande, a inexcedível, a originalíssima, a espantosa novidade do futebol inglês foi o chuveirinho”.
Passei pelo também obrigatório A Pátria em Chuteiras, coletânea de crônicas de Nelson Rodrigues, e por essa longa introdução para lembrar que os pedidos por mudança, no futebol e em todas as artes, aconteceram, acontecem e sempre acontecerão.
Ainda no apagar das luzes da maior derrota da história da seleção brasileira, os incontáveis 7 a 1 em Belo Horizonte, vale ressaltar diante da verborragia de textos, redes sociais da internet e canais de TV a cabo que pedem em uníssono uma reforma no futebol brasileiro – e é claro que ela urge! – que quatro anos depois do show de Garrincha no Chile, em 1962, decretaram o fim do futebol-arte; que quatro anos depois do tal futebol-força virar moda, o Brasil ganhou com Gérson, Rivellino, Tostão, Pelé e Jairzinho; e do carrossel holandês veio o Brasil do Telê e o Maradona e a Dinamáquina e a pobre Copa de 1990 e o time do Parreira e o do Scolari e o tiki-taka espanhol – que, pasme!, saiu de moda já no primeiro jogo da Copa seguinte a que o consagrou – e a intensidade alemã. Uma coisa meio influenciada por outra, umas referências tardias, outras mais breves, boas ideias desperdiçadas, outras nem tão boas que acabaram vingando, derrotas que se mostraram um sucesso, vitórias que mal foram fortemente celebradas.
Arte, ora, das mais complexas, muito mais do que a dualidade do bom e ruim, do velho e do novo, do ganhar ou perder. Como escreveu o mestre Tostão em sua coluna na Folha de S. Paulo em 2007 ao criticar as ideias do então técnico Dunga – e não é que o próprio já se faz presente ao reassumir a seleção nacional? – , diante de quem ignora o lúdico do esporte:
“Não percebem que a maior parte da vida se passa nas entrelinhas, na subjetividade, no que não está claro, no que pode ter sido e não foi”.
O Brasil, hoje, precisa reformar drasticamente o seu futebol. Isso é claro e já vem sendo adiado na abertura do mercado europeu, no fim da lei do passe, no início do Campeonato Brasileiro por pontos corridos, na escolha do Brasil como sede da Copa. O estopim parece ter sido aquele momento de seis minutos de atropelamento no Mineirão. As objetividades estão na mesa: profissionalização dos clubes, modernização da gestão dos campeonatos, educação de qualidade às crianças que sonham se tornar jogadores, administração transparente e democrática das federações, investimento na formação de atletas, fortalecimento de uma liga de clubes que tome ações em conjunto, etc. Mas atentemos às subjetividades também. Ao menos científico, imagino.

Os complexos
O título deste texto faz referência ao “complexo de vira-latas”, criado por Nelson Rodrigues, e à chamada do colega Douglas Ceconello, no inesgotável e eterno Impedimento, após a derrota brasileira para os alemães na última Copa, a Anatomia de um fiasco: o Complexo de Cachorro Grande.
“Cinco títulos e uma reviravolta brutal na PSIQUE nacional depois, nossa humildade extrema deu lugar à soberba e nos vemos inebriados por uma postura nada nobre que resultou, na tarde desta terça-feira, no maior fiasco da história do futebol brasileiro. Porque, depois de 2002, o Brasil passou a ser vitimado pelo complexo de cachorro grande”, escreveu Ceconello.
Muitos têm uma opinião parecida. O Zé Antônio Lima, do Esporte Fino, chamou isso de “fórmula mágica”: o Brasil que venceu cinco de 17 Copas foi para as outras achando que um ou outro craque – Ronaldinho/Ronaldo, Kaká e Neymar – iriam decidir a qualquer momento como símbolo desse otimismo exacerbado que junta grandes estrelas à camisa amarela. “Cada vez mais, os times e seleções compensam a falta de habilidade com disciplina tática e organização. Eles se preparam para ter alternativas quando tudo estiver errado”, escreveu.
O amigo Julio Gomes, jornalista da BBC, usa o termo “arrogância”, por exemplo, para comentar o fato de Neymar dizer que os jogadores da seleção brasileira atuariam em qualquer grande seleção do mundo. “Será mesmo, Neymar? Não seria mais um caso da tão falada (neste espaço) ‘arrogância nacional’? Vejamos. Do time titular contra a Alemanha, Júlio César, Luiz Gustavo, Bernard, Hulk e Fred, praticamente meio time, não jogam nos clubes top do mundo. Ele mesmo, o Neymar, não é ainda um absoluto no Barcelona. Será que não precisamos baixar a bolinha?”.
Todos têm sua razão, claro. De fato, essa dificuldade existe, a da seleção conseguir técnica e taticamente corresponder ao protagonismo que lhe pertence antes dos jogos e, mais que isso, corresponder na adversidade enquanto time de futebol que atrai os olhares de todo o mundo e fracassou na apatia da derrota para a França, na Alemanha; na falta de poder de reação na queda contra a Holanda, na África do Sul; e no atropelamento digno de futebol amador do jogo diante da Alemanha, agora, no Brasil.
Mas eu gostaria de me atentar também a um certo resgate do que é o futebol brasileiro. Ainda que eu corra o risco de parecer nostálgico e descolado da realidade atual – não é a intenção; acredito, sim, que o futebol mudou e a competitividade é inerente ao jogo, o que demanda uma transformação drástica no que o Brasil tem feito em relação ao esporte.
Leandro Beguoci, no Trivela, escreveu depois da constrangedora entrevista da comissão técnica após o Mineirazo que, “se continuar desse jeito, a seleção brasileira terá, apenas, um grande passado pela frente. Vamos viver de cantar ‘mil gols’, de celebrar o penta e de esperar que um comando com ideias velhas, que faz sempre a mesma coisa, seja capaz de entregar alguma coisa diferente. É, como diria Guimarães Rosa, esperar que o nada vire alguma coisa”.
Esse abismo do que temos pela frente, a meu ver, se dá principalmente pela falta da sensibilidade de quem comanda o futebol nacional com o que temos de melhor: exatamente a identidade de milhares de crianças com a atividade, esse sonho quase que mágico que habita as cabeças dos garotos que esperam a Copa do Mundo de suas vidas e o olhar lúdico, ainda na formação da relação com o contexto do futebol, para o improviso, para a plástica, para a arte de surpreender, de arriscar. E o futebol brasileiro fracassa ao usar essa raiz que está aí, espalhada pelos interiores de cada canto deste país, no aprimoramento de atletas até o exigente nível profissional.
É um desafio e tanto, ainda maior depois da abertura total do mercado do futebol, quando os garotos crescem não exatamente para desempenhar aquilo que os encantava na infância, mas sim com o rumo certo para um bom contrato num clube estrangeiro, não importa em que condições geopolíticas. Aqui vale citar um trecho do grande Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik.
“Eric Hobsbawm observou, recentemente, que ‘o futebol carrega o conflito essencial da globalização’, suportando de maneira paradoxal, talvez como nenhuma outra instância, a dialética entre as entidades transnacionais, seus empreendimentos globais e a fidelidade local dos torcedores para com uma equipe. A globalização consegue depauperar os campeonatos locais em países periféricos onde eles sempre foram fortes, como os do Brasil e da Argentina, e não consegue extinguir, até aqui, a forte demanda pela representação nacional contra a sua descaracterização globalizada. Terry Eagleton, observando por sua vez a pulverização contemporânea da vida social num turbilhão anódino de culturas particulares e pontuais, diferencia desse quadro o significado político extraordinário do esporte, em particular, do futebol: ‘basta pensar em como seria transformada a paisagem social e política britânica se não mais existisse o futebol para fornecer às pessoas a tradição, o ritual, o espetáculo dramático, o senso de existência corporativa, a hierarquia, a lealdade, a agressividade selvagem, o combate gladiatório, o espírito de rivalidade, o panteão de heróis e a apreciação de habilidades estéticas que fazem falta tão grande ao cotidiano capitalista’”.
É por aí também. Diante da megalomania do futebol moderno global – e seguem as contratações milionárias de quem parece se mostrar craque numa Copa, um torneio onde metade dos times joga três jogos e só um quarto chega a atuar ao menos cinco vezes, completamente atípico, portanto, em um mês num lugar qualquer do mundo – estão aí dois grandes exemplos de pensatas sobre o entender da importância do jogo numa identidade local. “Evoluir” não se torna questão apenas de produzir jogadores em grandes centros tecnológicos de formação física, técnica e psicológica de corpos, feito linha de produção fordista, mas de entender a demanda local, o uso daquela identidade na consolidação final do espetáculo. No caso brasileiro, como diz o trecho acima, esta relação se vê completamente sucateada diante desta lógica globalizada das grandes multinacionais – do Real Madrid ao Shakhtar Donetsk – tornando cada vez mais pobre nossos Palmeiras e Corinthians.
Outra citação que surge depois dos 7 a 1, neste sentido de questionar o que queremos ser com o nosso futebol diante de tal cenário internacional, é do economista Eduardo Giannetti, em entrevista à Folha de S. Paulo no domingo da final da Copa.
“Este é o impasse da cultura brasileira hoje: queremos ter um PIB per capita alemão abrindo mão da alegria e da espontaneidade inconsequente. É preciso elaborar essa diversidade, e o Brasil é mestre nisso. A questão é: queremos ser o país do futebol com uma produtividade alemã? Por que abrir mão do nosso improviso? O Neymar talvez nos represente, mas o Hulk não. O Brasil está em um impasse. É preciso escolher se queremos ser uma cópia dos EUA e da Alemanha, se estamos dispostos a sacrificar outros valores em nome de uma meta econômica e tecnológica. Ou se propomos uma solução original que, embora não alcance esse padrão, ofereça soluções criativas ao mundo, como se fosse um ensaio para a construção de uma civilização brasileira”.
É isso. Dar vazão a essa solução criativa, no âmago da formação natural de jogadores até outro dia peladeiros, chutadores de bola, construindo uma civilização – ou comunidade futebolística, no caso – que dialogue com essa originalidade rústica, com esse caminho do futebol quase que primitivo de outros tempos. Elaborar essa diversidade, como diz Giannetti, sem abrir mão da tal ousadia – lastimável esse termo ter se depreciado pela tal “ousadia e alegria”, que de sinônimo de um estilo de conduzir o jogo virou metáfora para descompromisso.
A graça
Acredito, sim, numa capacidade brasileira de reinvenção nessa mistura de referências, entre a arte e a ciência, o balé e a calculadora, a ginga e o músculo. A seguir algumas linhas do fundamental pensador brasileiro Gilberto Freyre sobre o assunto, na edição de 17 de junho de 1938 do Diário de Pernambuco, na conhecida coluna que foi intitulada Football Mulato.
“O nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor afirmação na arte política. Os nossos passes, os nossos pitus, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, o alguma coisa de dança e capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses e por eles e por outros europeus jogado tão angulosamentente, tudo isso parece exprimir de modo interessantíssimo para os psicólogos e os sociólogos o mulatismo flamboyant e ao mesmo tempo malandro que está hoje em tudo que é afirmação verdadeira de Brasil. Uma arte que não se abandona nunca à disciplina do método científico, mas procura reunir ao suficiente de combinação de esforços e de efeitos em massa a liberdade para a variação, para o floreio, para o improviso. Até mesmo a liberdade para a ostentação ou para a exibição do talento individual num jogo de que os europeus têm procurado eliminar quase todo o floreio artístico, quase toda a variação individual, quase toda a espontaneidade pessoal para acentuar a beleza dos efeitos geométricos e a pureza de técnica científica.”
E ainda que esse texto tenha apenas a intenção de alimentar a discussão sobre as necessidades de mudança do futebol brasileiro – em resumo: precisa organizar sua base, sua gestão, para melhorar seu fim, o jogo, claro, ainda que minha defesa aqui seja por uma maior reflexão sobre as características históricas e naturais do futebolista brasileiro diante das diversas transformações que o esporte já passou – ele acaba frustrado com o anúncio de Dunga, ele mesmo, como técnico da equipe nacional. E não me liste os números, o retrospecto, a biografia. Só consigo pensar que recomeço mais sem graça, impossível.
*Publicado originalmente no jornal ocicero, em agosto de 2014.