[por paulo silva junior]
Pelo amor de Bryan Ruiz, como se desfruta por eterno duma tarde como essa, perguntava uma exaltada costarriquenha atrás de um dos gols do Mineirão, sol a pino, quem diria, vendo a seleção nacional num inédito gozo do jogar já classificada num Mundial.
Logo ela, torcedora do Liverpool, confessa, que jurava em San José que aquele terceiro ingresso era o mais valioso de todos, onde já se viu, todos nós em Belo Horizonte podendo assistir ao Gerrard e a turma toda ouvir a gente gritar vamos, vamos los ticos, que esta tarde tenemos de ganar.
Mas pelo amor de Keylor Navas, a que ponto chegamos?! Quer dizer então que nós, quarta Copa do Mundo, rodapé dum grupo em que a parede foi tomada por pôsteres de campeões mundiais, nós, a Costa Rica, os Ticos, pegaremos um time reserva da Inglaterra porque nós, e não eles, fizemos esse jogo virar mera formalidade mundialista?
O que eu vi no Mineirão foi talvez a maior manhã da história do futebol costarriquenho, porque sim, me permitam o clichê, o Mundial está aí para mostrar que a memória futebolística não se faz apenas de vitórias e derrotas, mas de manhãs como essa, pelo amor de Celso Borges, nós somos o time a ser assistido por toda essa gente, olha só, olha aquele casal com a bandeira inglesa, é sério que o que lhes resta é a resignação da despedida confirmada?
E é sério mesmo, pelo amor de Joel Campbell, que esses todos brasileiros não nos apoiam por compaixão ou coisa do tipo, mas pelo cabeceio sobre Buffon, pelas corridas sobre Lugano?
Deixe a bola rolar, seu juiz, que os costarriquenhos não precisam ganhar nesta tarde, seria pequeno demais exigir uma vitória, outra mais, no terceiro campeão do mundo numa série de dez dias.
Eu abandonei meu ingresso neutro-eu-sou-brasileiro e pedi licença para perfilar com a torcida vermelha durante o hino nacional costarriquenho, cantado em alto e bom som pro mundo todo ouvir que enquanto uruguaios e italianos se esgoelavam por um lugar nas oitavas, por mais um final de semana, que, por ali, já estava garantido.
Sobre o dentro de campo, minha maior lembrança para sempre será o contraste da aula de balé do professor Ruiz – e suas passadas e giros dançantes, ritmados – com a orquestra do maestro Lampard, quanta categoria aquele meio-campo viu em hora e meia sem gols.
Nas arquibancadas, também fico com o empate, entre o desfrutar de uma rara rodada mundialista de glória dos de vermelho e o apoiar incondicional dos de branco, incansáveis, incríveis.
Porque se de um lado havia jovens costarriquenhos transbordando entusiasmo com aqueles onze que podem conquistar o maior resultado da história do país, por outro havia crianças, adolescentes, jovens, velhos que nem o passar dos anos lhe fazem desistir.
Vai ver é por isso que Lampard e Gerrard, que a cada dois verões e por tantos verões levam uma frustração internacional de volta para Inglaterra, ficaram por tanto tempo aplaudindo a torcida que não parava de cantar, um, dois, cinco, tantos minutos depois do apito final.
Apito final de verdade, porque ainda que o jovem Sturridge tenha tido a elegância de reconhecer o valor daquela gente ao atirar as chuteiras para a arquibancada, aquele Go, England provavelmente nunca mais encontrará os ouvidos daqueles senhores Frank e Steven.
Isso é que é grupo da morte, soprou um último fiel costarriquenho, respeitando a dor da emocionante despedida rival.
Ou ironizando, vai saber. Porque domingo já tem a Grécia, e a Costa Rica tem tudo para seguir vivendo.
Gracias, Ticos.
*Publicada originalmente no saudoso site Impedimento em junho de 2014.