[por paulo silva junior]
O senhor faz cinema pernambucano?, ouve Marcelo Gomes desde sempre, digamos que com maior difusão midiática desde que chegou a Cannes em maio de 2005 com seu primeiro longa na direção, Cinema, Aspirinas e Urubus, aquele que narra o encontro de Johann, alemão que foge do clima de guerra em 1942 para rodar o sertão vendendo o medicamento, e Ranulfo, nordestino que planeja tentar a vida no Rio de Janeiro. “E eu dizia que se você falar em cinema brasileiro, você está falando de Zé do Caixão, Meirelles, Glauber ou Padilha? É impossível delimitar isso num gênero. Imagina então levar isso ao cinema pernambucano, que está construindo uma nova tradição. Eu falei então que se eu tivesse fazendo um cinema pernambucano eu ia me sentir uma tapioca daquelas servidas em Olinda, um prato típico que você consome e tem um tempero específico”, diz o diretor recifense, direto da Europa, ao atender OcicerO por telefone pouco antes de embarcar para Berlim, onde apresentou em fevereiro O Homem das Multidões, parceria com o mineiro Cao Guimarães.
À época, Aspirinas venceu o Prêmio Educação Nacional no festival francês, onde o governo local seleciona um filme para rodar as escolas do país, e se tornou o primeiro nacional a vencer o prêmio máximo de melhor longa da Mostra Internacional de São Paulo, além de diversos outros títulos e menções em exibições dentro e fora do Brasil. E acirrava o debate em torno dessa posição de cinema com uma cara local, no caso, pernambucana.
“Ranulfo é um sertanejo que tenta escapar do sertão para sobreviver. Mas não é o personagem-arquétipo dos filmes sobre o Nordeste. (…) Desde que Nelson Pereira dos Santos e Luiz Carlos Barreto, sob a influência de José Medeiros, reinterpretaram a luz brasileira em Vidas Secas, não se via uma tradução tão orgânica do calor e da aridez do sertão no cinema. Sente-se na pele como é viver naquela geografia. Da mesma forma, os não-atores que contracenam com os dois personagens centrais adensam a trama e ajudam a torná-la específica”, escreveu o cineasta Walter Salles, de Central do Brasil e Linha de Passe, em crítica publicada no jornal Folha de S. Paulo no final de 2005. Ao mesmo tempo, Ranulfo, ou melhor, o ator João Miguel (de Cidade Baixa, Estômago,Era Uma Vez Eu, Verônica, entre outros) falou sobre o mesmo tema em reportagem do mesmo veículo. “Tenho orgulho de fazer um filme que não traz um sertão caricato, que não traz um sertão cartão-postal. É vivido no sertão, mas conta a história de dois homens”.
Neste contraste, o calor nordestino não passa despercebido. Aspirinas foi filmado entre nove da manhã e três da tarde, debaixo de um sol fortíssimo, praticamente sem nuvens. Marcelo Gomes chegou a brincar que iria demitir o diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. caso ele fizesse um filme cheio de céu azul, como lembra quase uma década depois. “Eu construí um personagem, o Ranulfo, que estava migrando do Nordeste, uma região que estava expulsando ele por questões adversas, sejam políticas, sociais ou a própria seca. E o alemão estava chegando num lugar desconhecido. Então a luz do meu filme era importante para a dramaturgia dos personagens. O cinema brasileiro está mais maduro, então não vou filmar um sertão de céu azul porque é bonito e pitoresco, mas porque há envolvimento com o fluxo dos personagens”.

Afinal, cinema pernambucano?
Em conversas com quase uma dezena de profissionais que trabalham com cinema em Pernambuco, a dificuldade de se firmar um conceito de cinema pernambucano se dá principalmente por dois pontos: a diversidade entre gostos e abordagens dos diretores locais; e a universalização dos temas, agora, na maioria das vezes, mais urbanos e menos ligados ao estereótipo do interior nordestino.
“Eu começo te dizendo que nenhum realizador pernambucano gosta desse carimbo que circula de modo generalizado na mídia”, diz o jornalista Luiz Joaquim, por telefone, enquanto cobria para a Folha de Pernambucoo Festival de Tiradentes na última semana de janeiro. “Cada um desses realizadores têm uma assinatura muito particular. O que acontece é que tivemos, por exemplo, no ano passado, uns cinco filmes com boa exposição na mídia: Tatuagem [Hilton Lacerda], O Som ao Redor [Kleber Mendonça], Eles Voltam [Marcelo Lordello], Doméstica[Gabriel Mascaro] e Boa Sorte, Meu Amor [Daniel Aragão]. E também acho que não dá para colocar tudo no mesmo saco, como não dá para juntar o trabalho que fazem Cláudio Assis, Gabriel Mascaro, Kléber Mendonça, Marcelo Pedroso. Cada um tem um interesse muito próprio e talvez, se há um aspecto que interligue essas produções, é a liberdade”.
Essa liberdade também é assunto para Paulo Caldas. O diretor de Baile Perfumado (1996, ao lado de Lírio Ferreira) e Deserto Feliz (2007), entre outros, acredita que essa forma de atuação dos cineastas em Pernambuco – baixos orçamentos, projetos autorais e consolidação de uma rede coesa de amigos que trabalham juntos – é a grande identidade desta turma. “Se há coisas em comum na produção pernambucana é nesse modelo de produção, nessa coisa de quem trabalhar num filme também trabalha em outro, nessa força cultural do grupo. E aí eu sei que muitos de nós questionam essa coisa de cinema pernambucano, mas eu não. Eu acho que é utilizado porque assim a gente é identificado. E agora, no Festival de Berlim, por exemplo, eu tive várias reuniões com pessoas por lá e é interessante ver que eles têm conhecimento de que há uma produção diferenciada pernambucana”.
Voltando à discussão sobre a cara destes filmes, questiono os diretores em relação à forma com que essas produções mais recentes, principalmente aclamadas pela crítica, conseguiram englobar temas mais universais, menos presos a um possível estereótipo nordestino. No final de 2005, Marcelo Gomes, no lançamento deAspirinas, falou à Folha: “Eu queria destruir a idéia do nordestino como bom selvagem: o homem apático, simpático, bonzinho, que faz rir da própria ignorância”; Karim Aïnouz, diretor de Madame Satã, O Abismo Prateado, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (e tantos outros) e que trabalhou no roteiro de Aspirinas eCidade Baixa (ambos lançados naquele ano), destacou na mesma reportagem que o Nordeste é visto “constantemente com uma presença do arcaico ou do futuro, sem o entretempo do presente. Não vou ser pretensioso de afirmar que é inovador, mas acho que existe um frescor nesse desejo de olhar para o Nordeste e o sertão de um modo muito contemporâneo”.
Roteirista de diversos filmes nesta safra (veja entrevista completa ao fim da matéria) e diretor do recém-lançado – e premiado – Tatuagem, Hilton Lacerda ressalta que “não é raro as pessoas lembrarem de Aspirinas como se fosse preto-e-branco. Lembro até de algumas dizendo que achavam que tinha sido filmado na Alemanha”. Ainda sobre o tema, com a palavra, o próprio diretor, Marcelo Gomes.
“Acho que é uma ideia do Fernando Pessoa, de que quanto mais você fala do rio da sua aldeia, mais universal você é. Acho que é isso, o Brasil pode e quer falar de grandes temas. Meu filme atual [O Homem das Multidões] fala de solidão em cidade grande e podia ser em São Paulo, Rio de Janeiro, Praga, Nova Iorque, qualquer lugar com solitários urbanos. Mas claro, não deixa de ter um olhar nosso. Eu sou um pernambucano que faz cinema, e isso traz a cultura que eu tenho, está impregnado, minha herança cultural está presente. Agora, dizer que eu faço parte de um gênero que é cinema pernambucano é leviano”.
E quem apostou no preto-e-branco foi Cláudio Assis. Diretor de produção em Baile Perfumado, ele estreou em longas com Amarelo Manga (2002), premiado em Berlim, Toulouse e Havana e que também levou tudo no Festival de Brasília – juri oficial, juri popular e crítica; em 2006, com Baixio das Bestas, manteve no elenco nomes como Matheus Nachtergaele e Dira Paes, trabalhou pela primeira vez com Irandhir Santos e levou não só seis prêmios em Brasília, como foi o primeiro brasileiro a conquistar o Tiger Award em Roterdã; e com Febre do Rato, em 2011, consolidou a sequência, desta vez em pb, com Irandhir como o poeta Zizo e já mais conhecido depois de viver Diogo Fraga, defensor dos direitos humanos e antagonista do Capitão Nascimento em Tropa de Elite 2(2010) – o ator ainda se firma como uma das caras dessas produções pernambucanas ao atuar com destaque em O Som ao Redor e Tatuagem.
“Eu já tinha isso do preto-e-branco um pouco em mente, mas foi uma decisão tomada por uma equipe – não só minha ou do Walter Carvalho (diretor de fotografia). Conversamos com a direção de arte, figurino, toda a equipe. Fizemos de uma forma que, se a gente quisesse voltar atrás, não ia poder mais. Não daria pra mudar na finalização, no Final Cut. Para nós, o preto e branco ajuda você a ouvir a poesia e mostra um Recife que não é necessariamente o de hoje”, explicou Cláudio Assis na divulgação oficial do longa.
Diretor da Rec Produções e produtor de Aspirinas (entre vários outros), João Vieira Jr. atendeu a reportagem por telefone. Ele acredita que as películas produzidas em Recife e região escaparam deste carimbo de regionalidade. “Ouve um momento, há uns dez anos atrás, quando o Aspirinas estava sendo lançado, que havia esse papel de que não se podia cair no pitoresco sempre, mas sim entender a gama das relações humanas, das realidades, do arcaico, do atual. A gente ultrapassou essa armadilha e hoje a produção é muito diversificada, com filmes maispop, urbanos. Por isso que acho que tratar como pernambucano parece reduzir demasiadamente a capacidade que esses diretores têm de se comunicar. Defendemos que isso é cinema brasileiro”.
Também no meio da década passada surgiu Árido Movie (2006), filme que também se tornou uma espécie de marca nessa retomada do cinema pernambucano. O diretor Lírio Ferreira, que uma década antes dirigiu com Paulo Caldas o sucesso Baile Perfumado, falou sobre o assunto durante o lançamento do longa em 2006. “Árido movie nunca foi um movimento nem um manifesto. É uma mística. Uma expressão cunhada pelo cineasta e jornalista Amin Stepple, com quem dirigi o curta That’s a Lero Lero [1994]. Uma mística sobre o momento em que a gente estava vivendo, em que o Marcelo [Gomes] estava escrevendo o roteiro de Cinema, Aspirinas e Urubus e o Cláudio [Assis] estava pensando no Amarelo Manga [2002], em que a gente estava acabando de sair do Baile Perfumado [1996]. É uma grande homenagem àquela época e àquele momento em que a gente tentava colocar Pernambuco na geografia cinematográfica do país. A gente sentava numa mesa de bar, discutia muito cinema e bebia muito uísque. Era uma ideia na cabeça e um copo na mão”.
A partir daí foram surgindo diversos longas de temática, digamos, menos quente. O diretor Kleber Mendonça Filho, por exemplo, lança em 2009 o curta-metragem Recife Frio, exatamente uma ironia ao tema central desta reportagem. Num falso-documentário, a história mostra um repórter chamado Pablo Hundertwasser produzindo um programa sobre a mudança na vida da capital pernambucana a partir de uma súbita queda de temperatura. “Uma mudança climática que está revolucionando toda uma cultura e desafiando a comunidade científica internacional. Nesta edição, Recife, a cidade que deixou de ser tropical”, coloca o personagem, que encontra moradores locais para contarem como anda a vida sem sol depois de sete meses. Em 2012 o mesmo Mendonça vê O Som ao Redor fortalecer ainda mais a produção local ao monopolizar prêmios de melhor filme na Mostra de São Paulo, Festival do Rio e Gramado, para não falar do prêmio da crítica no Festival de Roterdã, a presença na lista dos dez melhores do ano no jornal The New York Times e ao fato de ser a indicação brasileira para a seleção do Oscar, ainda que não tenha passado aos indicados da Academia.
“Teve esse reposicionamento do olhar para a cidade, nos anos 2000 de forma mais urbana, mais concreta. O Gabriel Mascaro fez Um Lugar ao Sol, onde a partir da perspectiva de moradores de coberturas de prédios não só do Recife, mas também de São Paulo e Rio, ele apresenta um painel da classe rica brasileira. Ele fez tambémAvenida Brasília Formosa, que acompanha a população de um bairro popular do Recife. A Renata Pinheiro fez oPraça Walt Disney, onde critica um lugar que ninguém frequenta. E O Som ao Redor é como uma síntese disso tudo, vai além. Agora eu acho que o cinema no estado vai começar a relaxar um pouco em 2014 e 2015, falar de outros temas, mas não mais descartando essa inquietação com o crescimento urbano da cidade”, aponta o jornalista Luiz Joaquim. Com vivência em diversas funções do audiovisual e morando no Recife desde 2012, Paulo Pucci lista, em contato por e-mail, ainda outros nomes. “Percebo que essas produções tendem a representar, na maioria dos casos, determinadas localidades da própria região e seus personagens, ao mesmo tempo que abordam temáticas hoje em dia não apenas da cultura tradicional nordestina, mas de questões que problematizam e representam o mundo moderno. Alguns deles são: Em Trânsito, de Marcelo Pedroso,Superbarroco, de Renata Pinheiro, Setembros, de Adalberto Oliveira, Muro, de Tião, e Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes [ele coloca também o longa O Som ao Redor e os dois supracitados filmes de Gabriel Mascaro]”.
O Som ao Redor é, de fato, o filme brasileiro com maior repercussão na crítica internacional nos últimos anos. O próprio diretor disse, em entrevista no final do ano passado ao portal NE10, ter se surpreendido com a seleção para Roterdã e que, “como observador”, diz que isso aconteceu pela “natureza universal do filme” – no festival foi escolhido como melhor filme pela Associação Internacional dos Críticos.
E o som é, como o próprio diretor já admitiu, metade do filme, no mínimo. Um dos integrantes da equipe que construiu toda a sonoridade do longa é DJ Dolores, na ativa desde os tempos de Manguebeat e que levou o prêmio de melhor trilha sonora em Gramado-2013 por Tatuagem, de Hilton Lacerda.
“As produções são tão diversas que não consigo identificar o que há de comum entre elas. Houve a construção de valorização do cenário urbano, contemporâneo do Recife. Texas Hotel [curta de Cláudio Assis] foi um marco. Os principais filmes da atualidade redescobriram o Recife e – coisa interessante – botaram a classe média como protagonista”, responde à reportagem por e-mail. Aliás, essa ligação da produção musical dos filmes pernambucanos com os músicos ligados ao Manguebeat é lembrada a cada resposta. A força do movimento que corria ao lado da inquietação desta turma de cineastas – Da Lama Aos Caos, primeiro álbum de estúdio de Chico Science e Nação Zumbi é lançado em 1994 – se reflete, portanto, na musicalidade das obras, como é descrito no trabalho O Novo Ciclo do Cinema em Pernambuco – A Questão do Estilo, dissertação de Amanda Mansur apresentada na pós-graduação em comunicação da Universidade Federal de Pernambuco em 2009.
“O trabalho colaborativo com os mangueboys já começava a aparecer no cinema a partir dos curtas da década de 90, cabendo aos músicos do Manguebeat dirigir e/ou executar as trilhas de filmes como: Cachaça (1995), de Adelina Pontual (Fred Zero Quatro); Maracatu, Maracatus (1995), de Marcelo Gomes (Chico Science e Canibal),Texas Hotel (1997), de Cláudio Assis (Lúcio Maia e Jorge Du Peixe); Simão Martiniano – O Camelô do Cinema(1998), de Hilton Lacerda e Clara Angélica (DJ Dolores e Fred Zero Quatro); Clandestina Felicidade (1998), de Marcelo Gomes e Beto Normal (Fred Zero Quatro e DJ Dolores); Vitrais (1999), de Cecília Araújo (Otto e Pupillo);O Mundo é Uma Cabeça (2005), de Bidu Queiroz e Cláudio Barroso (CSNZ, MLSA, Ortinho, Hélder Vasconcelos, Siba)”.
Distribuição e público
Nove filmes brasileiros superaram a casa de um milhão de espectadores em 2013 sob a liderança de Minha Mãe É Uma Peça – O Filme, que levou 4,6 milhões de pessoas ao cinema no ano passado. Lá em baixo, nas posições 25 e 29 de um top30 atualizado pelo portal Filme B e com números até 31 de dezembro último, estão O Som Ao Redor, com 94 mil pessoas, e Tatuagem, com 31 mil – este último ainda segue em cartaz e passou a marca dos 40 mil. E se a produção nacional está em pleno crescimento – segundo a Agência Nacional do Cinema, Ancine, foram 120 lançamentos no último ano diante de uma cronologia que não alcançava os três digitos desde 1986, e agora, para 2014, são previstos 136 – aumenta a concorrência para essas produções de Pernambuco.
“Se antes o cinema mais autoral brigava com Hollywood, agora temos uma produção mais objetiva de filmes de comédia, com a chancela da Globo, que apertou ainda mais o nicho. E isso foi se transformando muito rapidamente. Tem um exemplo muito interessante que são os filmes do pernambucano Cláudio Assis. O Amarelo Manga fez 120 mil pessoas, o Baixio das Bestas fez 60 mil e o último dos três, Febre do Rato, alcançou 30 mil, isso num curto espaço de tempo. E esses filmes de forma alguma tiveram perda de qualidade, então se o filme não mudou, o que mudou foi o mercado”, coloca o crítico da Folha de Pernambuco, Luiz Joaquim. Entre soluções alternativas para essa dificuldade de distribuição, o jornalista cita o longa Pacific, de Marcelo Pedroso, que foi lançado no cinema de forma discreta e focou num projeto conjunto com a revista Continente, que levou o filme aos leitores.
Sara Silveira, produtora de centenas de filmes, entre eles, Cinema, Aspirinas e Urubus, também tratou das alternativas na distribuição internacional em entrevista à revista Cinética, em 2008. “Foi vendido para uns 20 países [Cinema, Aspirinas e Urubus]. Mas é demorado, um trabalho difícil, filme lento, dois atores, com uma cor estranha, tudo feito no sertão. Nem posso falar tanto porque Aspirinas teve 150 mil espectadores no Brasil, mas porque foi a Cannes e representou o Brasil no Oscar. Aqui nós saímos com 17 cópias e em Paris foram 15. Tem o caso, por exemplo, de Estômago [2007, direção de Marcos Jorge e com João Miguel como protagonista], que teve na Bélgica e na França 17, 18 cópias, e no Brasil saiu com sete ou oito. A Holanda tinha 15”.
João Vieira Jr. fala do assunto usando como referência Tatuagem, filme que produziu. “Chega como melhor filme em Gramado, cinco prêmios no Rio e do tamanho que podemos. Tatuagem foi lançado com 17 cópias e eu acho que o público tem necessidades maiores. Também já foi para algumas TVs e dez países. Mas é o que dá, lembrando que são todos filmes de baixo orçamento”.
De fato, não há produções caras em questão. Mas um dos grandes avanços para essa geração é o aperfeiçoamento do edital estadual através do Funcultura, organizado pela Fundarpe, Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco. O fomento existe desde 2003, mas em 2007 passou a ter um programa destinado ao audiovisual e que já investiu R$43 milhões nas seis primeiras temporadas – as inscrições para 2013/14 terminaram em 21 de fevereiro numa linha que dedicará R$11,5 milhões à produção cinematográfica local.
As duas histórias em paralelo – o aquecimento da produção cultural local com os curtas nos anos 1980, o Manguebeat e o pontapé dado por Baile Perfumado (o filme é o primeiro longa desta retomada na década de 90); e o fato do governo local se mexer para dedicar um fundo exclusivamente a esses produtores de cinema no estado – fizeram com que a sétima arte tenha se tornado assunto de extremo interesse no estado. Não à toa, Luiz Joaquim, jornalista da Folha de Pernambuco, é um dos poucos do país que frequenta a grande maioria de festivais de cinema no Brasil e no mundo, além do jornal se notabilizar por dedicar bom espaço aos realizadores. “Ali pela segunda metade dos anos 90, eu, o Kléber Mendonça e a Luciana Veras, cada um num veículo, começamos a ir atrás de muita pauta de cinema. O Kléber saiu para se dedicar à direção, a Luciana virou assessora de imprensa e eu continuei. Hoje talvez eu seja o jornalista que mais circula pelo circuito de festivais mesmo”, conta.
A proximidade entre crítica, imprensa e cinema também se dá pela formação de quem trabalha com audiovisual. Como lembra Paulo Caldas, toda uma geração estudou jornalismo porque não havia um curso de cinema – hoje existente na Universidade Federal do Pernambuco. Além disso, há agora outras carreiras em instituições privadas e até uma graduação em cinema de animação.
Mas, o que fazer para aumentar o público? Caldas ressalta que esse problema no cinema independente, de arte e autoral vive uma crise mundial de dificuldade para fazer crescer o alcance. Para ele, as distribuidores trabalham com esses filmes como fazem com qualquer outro, e não há uma comercialização e publicidade específica. Marcelo Gomes fala em formação de público. Na visão do diretor, diante das comédias globais, precisa haver uma formação de um olhar de cinema, uma busca por uma visão mais reflexiva da arte.
Falando em global, uma síntese dessa discussão entre distribuição de menor orçamento e grandes produções ligadas à gigante das comunicações se deu no embate entre Kleber Mendonça e o diretor executivo da distribuidora Globo Filmes, Cadu Rodriguez. Em entrevista, Kleber, diretor de O Som ao Redor (orçamento de cerca de R$1,8 milhão), disse que “se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana. As produções são realizadas com muita grana e lançados com muita grana. Gastam R$6 milhões, mas parecem ter custado R$800 mil porque têm dois apartamentos, quatro atores da Globo, um cachorro e um gato”.
Em resposta, Cadu propôs: “desafio o cineasta Kléber Mendonça Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo o apoio da Globo Filmes! Se fizer, nada do nosso trabalho será cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 mil, assume publicamente que, como diretor, ele talvez seja um bom crítico”.
Na tréplica, Kléber devolvou outro desafio: “que a Globo Filmes, com todo o seu alcance e poder de comunicação, com a competência dos que a fazem, invista em pelo menos três projetos por ano que tenham a pretensão de ir além, projetos que não sumam do radar da cultura depois de três ou quatro meses cumprindo a meta de atrair alguns milhões de espectadores que não sabem nem exatamente o porquê de terem ido ver aquilo. Esse desafio visa a descoberta de novos nomes que estão disponíveis, nomes jovens e não tão jovens que fariam belos filmes brasileiros que pudessem ser bem vistos, se o interesse de descoberta existisse de membro tão forte da cadeia midiática nesse país, e cujos produtos comerciais também trabalham com incentivos públicos que realizadores autorais utilizam”.
Para encerrar o assunto, reportagem de Luiz Carlos Merten no jornal O Estado de S. Paulo nos primeiros dias de dezembro fazia um balanço de 2013 destacando essa dificuldade de mais filmes nacionais participarem ativamente do mercado: “Este ano, vai a 17% [participação de filmes nacionais nas bilheterias do país], mas, dos 115 longas lançados em 2013, 15 dividem, de forma desigual, 15% de toda a renda, cabendo aos outros cem os 2% restantes. Ou seja, o cinema brasileiro vai bem, mas a maioria dos filmes vai mal”.
Hilton Lacerda: “Pensar global e produzir local”
Depois de duas décadas trabalhando em roteiros de sucesso dentro da produção cinematográfica desta turma de Pernambuco – Baile Perfumado, Amarelo Manga, Árido Movie, Baixio das Bestas, A Festa da Menina Morta,Febre do Rato, entre outros, Hilton Lacerda estreou na direção de longas de ficção com Tatuagem. O filme, que se passa no ambiente da ditadura militar em 1978, mostra um grupo de artistas resistentes à repressão e o encontro amoroso entre Clécio, líder do grupo de teatro, e Fininha, um jovem interiorano que está servindo ao exército. Com o filme ainda em cartaz (mesmo que em poucas salas) até o fechamento desta edição, Hilton falou ao jornal OcicerO sobre a distribuição do longa, a temática dos filmes desta geração e evolução do cinema pernambucano. Ou melhor, para ele, cinema feito em Pernambuco.
OcicerO – Hilton, qual sua avaliação do alcance que tem tido Tatuagem?
Hilton Lacerda – Quando você faz um filme você tem algumas ambições, e o que você faz é uma constatação. Um público de 45 mil pessoas é considerado uma bilheteria extraordinária pela distribuição, ao mesmo tempo que ser considerado bom público é meio que estacionar nisso por uma questão de janela de exibição. Eu tô muito feliz com o resultado. No âmbito geral, o que eu acho preocupante é que essas janelas tão minguando um pouco, é muito avassalador, às vezes é uma sala numa sessão por dia, então é difícil fazer número. Se pegar O Som ao Redor, fez quase 100 mil e já é um marco.
OcicerO – Com o sucesso de crítica desses filmes pernambucanos recentes, com por exemplo Tatuagem sendo melhor filme do júri em Gramado e monopolizando os prêmios no Festival do Rio, como você estabeleceria uma cronologia no estado desde Baile Perfumado (1996)?
HL – Acho que tem uma linha evolutiva no cinema feito em Pernambuco desde o Baile porque de certa forma ele respaldou as produções que vieram depois. Quando a gente fez o Baile era algo desacreditado porque o Brasil não vinha fazendo cinema como hoje. Ele participou dum prêmio de resgate do cinema brasileiro e foram feito cinco filmes. O próprio tema do cangaço, com uma roupagem pop, com o movimento Manguebeat, tudo chegando pra somar, então ele apareceu provando que existia uma produção diferente. E deu certo. E aí foi se mecanizando e acho que a coisa mais importante é o amadurecimento do processo de produção que hoje tem um resultado muito eficiente. O que a gente conseguiu pelas leis a gente não precisa prestar contas em relação ao conteúdo, e o que é incrível é que não estão fazendo publicidade nem poética do estado, é bastante duro com relação ao embate social, aos embates políticos. O que é interessante é que esses cineastas não têm uma raiz única, essa raiz fica mais ligada ao processo produtivo. Se pegar Kleber Mendonça e Marcelo Gomes, eles não têm nada a ver; se pegar o Cláudio [Assis], então é mais gritante ainda. Aí você pega um cara igual o Tião, que fez o curta O Muro e vai lançar um longa agora. É muito variado.
OcicerO – Esse sucesso também tem relação com a universalidade dos temas abordados? Os filmes hoje são mais globais e menos ligados a um ambiente especificamente nordestino?
HL – Acho que tem uma coisa muito importante na formação de uma geração toda que é pensar global e produzir local. Essa ideia sobre de que forma vamos apresentar uma região vai criando com novas nuances. Se você pegar tematicamente, quando eu falo de Aspirinas eu falo de seca, alguém que quer fugir desse inferno e um estrangeiro que foge da guerra, agora qual a forma de tratar isso? Não é raro as pessoas lembrarem do Aspirinas como se fosse preto e branco, lembro que algumas pessoas pensaram que era na Alemanha, mas era um calor imenso, jogando balde na própria cabeça. O Baile Perfumado, por exemplo, trazia esse sertão meio pop, muito característico, em volta do rio São Francisco. O Amarelo Manga trouxe também essa discussão pro nível da urbanidade. E quando você chega emO Som ao Redor ou Era Uma Vez Eu, Verônica, já é outra classe: o que interessa é o eixo do presente, uma crítica do olhar. O Som sugere gênero como se houvesse suspense, ao tempo que trata de especulação imobiliária. Então não é que outros temas perderam o interesse, eles mudaram o eixo de observação.
OcicerO – E o que você acha do conceito de cinema pernambucano? Como esse termo funciona para você?
HL– Às vezes algumas coisas são nomeadas e você acaba fazendo parte. Eu sou bem contra o termo cinema pernambucano porque o termo parece que está falando de uma unidade narrativa e que não é coerente com o que a gente faz. Gosto mais de cinema feito em Pernambuco. Agora obviamente que isso é uma faca de dois gumes. Pode ser que ela sirva também para os produtores negociarem melhor o seu projeto, mas por outro lado é muito mais fácil você desqualificar um movimento maior do que cinema simplesmente pernambucano. Ano que vem são 20 anos de quando foi filmado o Baile, já passamos de uma década de produção, e ela vem aumentando. Mas acho que não dá pra evitar, eu pessoalmente não gosto da antipatia quando esse clima de enfrentamento é criado, quando você fala de cinema fora do eixo produtivo São Paulo e Rio, não é esse embate que interessa, mas sim que tipo de herança narrativa você tá dando pro cinema brasileiro. O que é importante pra gente refletir sobre isso tudo é que nossa produção não é uma Hollywood, mas sim é uma que se mantém com um caráter muito específico, uma conquista política de produção. Pernambuco, de 1964 até o final dos anos 1980, foi muito isolado de informação no resto do Brasil, tudo era muito local. E quando se deu essa chance de comunicação, isso vazou, teve uma coisa meio conjunta, teve o Manguebeat, movimento de tamanho que talvez não existisse desde a Tropicália, teve o movimento das artes plásticas. Teve uma explosão. Hoje você tem um centro de cultura digital no Recife muito interessante, hoje a região construiu um parque de finalização que vão dando cada vez mais funcionalidade. E de certa forma o Pernambuco encheu de coragem um monte de cinematografia pra fazer valer: o Ceará é um polo importante, a Paraíba também vem sendo, em Minas Gerais é sensacional o que vem sendo feito, o Pará começando, o Rio Grande do Sul, que era importante em 80, volta agora com uma nova geração. A gente que convenceu o estado, não ele que nos obrigou.
*Publicado originalmente no jornal ocicero, em abril de 2014