Medo e delírio em Copacabana

[por paulo silva junior]

Era uma manhã tranquila e de calor como tantas outras em Copacabana ali pelo início dos anos 60 quando quem tomava um café ou então já pedia por uma birita logo cedo viu um jovem de 25 anos, caneta no bolso da camisa e bloco de papel no da calça, saltar o balcão do boteco, pegar uma panela numa mão, o braço do cozinheiro com a outra, e ensiná-lo, falando um mau português e diante de uma plateia atônita, a preparar ovos mexidos.

O gringo em questão era um jornalista nascido em Louisville, nos Estados Unidos, que chegara ao Brasil depois de uma temporada descendo a América. Hunter Stockton Thompson conseguiu um emprego no Brazil Herald, uma publicação em inglês editada no Rio de Janeiro, e se manteve como correspondente do National Observer, de Washington.

Àquela altura, ele já havia começado a escrever o clássico Rum: Diário de Um Jornalista Bêbado, que só foi virar livro em 1998 e narra a vida de um repórter que chega em San Juan, Porto Rico, para se livrar da vida de Nova Iorque. Mas quando a famosa obra ainda nem existia e Hunter nem tinha ideia de que elas seriam difundidas em todo o mundo e até retratadas no cinema hollywoodiano por Johnny Depp, o repórter que ficaria conhecido como pai do gongo jornalismo era só mais um buscando emprego no verão carioca.

Bill Williamson era dono do Brazil Herald e recebeu uma carta do jovem jornalista:“estou no limite da insanidade, enfraquecido pela disenteria, atacado por moscas e vermes, sem correio, dinheiro ou sexo. Perseguido 24 horas por dia por ladrões, mendigos, cafetões, fascistas, agiotas, loucos e bestas humanas de toda a espécie”, contou a Álvaro Pereira Jr. em matéria do Fantástico após a morte de Hunter, que se suicidou em 2005.

Conversei com Bill por e-mail. Ele reproduziu esse trecho da carta enviada pelo jovem Hunter e ainda anexou a cópia de uma matéria publicada no próprio BH em 23 de outubro de 1962, aquela que para ele é um dos primeiros exemplos do gonzo de Hunter, na capacidade narrativa de abandonar a tradição de relato objetivo e se misturar aos acontecimentos.

“Senador Telmadge fala de auto-ajuda e mostra preocupação com América Latina”, diz o título do texto assinado por Hunter S. Thompson, que já começa direto: “O senador dos Estados Unidos Herman Talmadge falou ontem à Câmara Americana de Comércio no Rio de Janeiro que ‘nós sabemos de ler a Bíblia e as escrituras que nem os Estados Unidos nem Deus podem ajudar as pessoas que não podem ajudar a elas próprias”. Bill conta que o teor da matéria não agradou o mundo dos negócios local, mas que jamais demitiria Hunter por isso – ainda que não tenha mais colocado créditos nas reportagens do boêmio.

Hunter viveu no Rio de Janeiro entre setembro de 1962 e abril de 1963. Morou na avenida Nossa Senhora de Copacabana e era visto no bar Vilarinos, onde, diz a história, Tom Jobim foi apresentado ao poeta Vinicius de Moraes e também local em que o termo bossa nova teria sido ouvido pela primeira vez. “Era um centro de jornalistas. Os escritórios do Brazil Herald ficavam na rua México, número 3, os jornalistas brasileiros da seção de imprensa da Embaixada Americana estavam na avenida Presidente Wilson. A Agência Nacional ficava do outro lado”.

Bill indica outro jornalista da turma: Robert Bone. Também por e-mail, ele conta ao OcicerO mais detalhes sobre a vida de Hunter no Rio – é também quem revela a frustração do amigo com a qualidade dos ovos mexidos preparados na cidade, citada na abertura deste texto. “Ele não ia muito à praia. A única vez que lembro dele em Copacabana é quando fomos eu, ele e sua companheira, Sandy, para tirar algumas fotos”, lembra, já fazendo legenda para o belíssimo retrato que estampa esta página, cedida por ele gentil e especialmente, me arrisco a dizer que publicada agora de forma inédita no Brasil – Bob Bone à esquerda, Hunter Thompson no centro e Sandra Conklin, a Sandy, então namorada e futura esposa de HT, à direita, em algum momento entre o final de 1962 e o começo de 63.

Bob ainda destaca duas boas histórias ao lado de Hunter naquele verão:

“Eu não lembro se ele tinha um bar favorito, mas me recordo de uma ou duas vezes a gente ter ido num lugar chamado Kilt Club, que ficava ali bem perto do começo da praia de Copacabana. Saímos com algumas working girls lá. Isso foi antes da Sandy [Sandra Conklin, namorada de Hunter] chegar, claro”.

“E eu lembro que Hunter aprendeu somente um mínimo de português. Ele me disse uma vez que um escritor sério não deve aprender muito de uma outra língua. Eu também lembro que ele costumava falar em espanhol no Brasil, e às vezes era compreendido. Eu tinha de traduzir algumas coisas pra ele”.

 

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o trio em primeiro plano, da esquerda para a direita: bob bone, hunter thompson e sandy, numa rara imagem do pai do gonzo em copacabana (foto: acervo pessoal robert bone)

Um continente

Bob sugere uma conversa com Brian Kevin, que também me atende via internet. Ele rodou a América do Sul pra repetir os caminhos de Hunter Thompson e publicar um livro chamado The Footloose American – Following the Hunter S. Thompson Trail Across South America, que sai no primeiro semestre de 2014 pela Broadway Books.

Nas andanças e pesquisas que fez a partir das publicações de Hunter, Brian esteve na Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Paraguai e Brasil, onde relatou passagens por Rio de Janeiro e Pantanal. E enquanto o livro não sai, ele publica alguns relatos interessantes numa página da internet – cowbird.com/brian-kevin/.

Este trecho é de um texto feito depois de visitar o Brasil. “Thompson certa vez escreveu: ‘depois de um ano circulando por aqui, a principal coisa que eu aprendi é que agora eu entendo os Estados Unidos e o porquê isso nunca será o que poderia ser ou ao menos tenta ser’. Eu lembrei disso enquanto dava uma última olhada para o horizonte de São Paulo. Então puxei a cortina de plástico e chamei a aeromoça por mais cerveja”.

Depois, Brian segue levantando temas pelos quais Hunter passou 50 anos antes, como por exemplo as matérias em que o jornalista tratou de inflação, dos desafios da economia brasileira depois da construção de Brasilia e de outros assuntos relacionados à política. “Um dos piores espirais inflacionários do mundo”, escreveu o pai do gonzo num artigo em 1963.

“Bob Bone me contou que Thompson e Sandy eram pessoas de sentar por aí e bater papo. Gastavam um bom tempo vagando pela praia de Copacabana, acredito que fumando, virando Brahmas Chopp e falando de notícias, livros, cultura, política. Ele entrou de forma pesada na política do Brasil cobrindo para o National Observer e para o Brazil Herald, então eu imagino que isso era um assunto frequente das conversas dele. Agora, você mencionou o futebol, e eu não lembro de ter visto nada sobre futebol nos escritos de Hunter. Mas a praia era gigante pra ele. A mística da praia era um dos grandes motivos que o fazia amar o Rio. E ele abraçou ainda mais isso tudo depois de detestar a maior parte das coisas que encontrou pelos Andes”, relata ao OcicerO.

Cita ainda a rua Carvalho de Mendonça como um dos lugares mais frequentados por Hunter, reforça a Kilt Club como um dos lugares favoritos do jornalista e recorda o Domino, um bar de luxo que foi palco de um tiroteio em fevereiro de 1963, quando paraquedistas do Exército atacaram a boate com metralhadoras para se vingar da morte de um sargento semanas antes. No texto, intitulado Brazilshooting e publicado no National Observer, Hunter usa de sua ironia peculiar: “Um americano ficou imaginando qual seria a reação se soldados do Fort Knox, no Kentucky, varassem de tiros um bar em Louisville onde um soldado tivesse sido enganado, espancado ou mesmo morto algumas semanas antes. ‘Não consigo nem conceber isso’, afirmou, ‘mas se alguma vez acontecesse aposto que seriam todos enforcados’. Outro americano disse ‘caramba, quando eu era tenente [no Exército americano] provavelmente poderia ter requisitado dois caminhões de garagem se quisesse me vingar de alguma boate. Mas tenho certeza que nunca conseguiria dois pelotões de homens armados para me seguir’. Aí está a raiz do problema, e uma das maiores diferenças entre os Estados Unidos e não apenas o Brasil, mas todos os países latino-americanos. Onde a autoridade civil é fraca e corrupta, o Exército acaba se tornando rei. Até mesmo as palavras ‘justiça’ e ‘autoridade’ assumem significados diferentes. Depois do ataque do Domino, o Jornal do Brasil publicou uma matéria em sequência cuja manchete anunciava: ‘Exército não vê crime em sua ação’. Ou, como observou George Orwell, ’em terra de cego, quem tem um olho é rei’”.

A matéria, traduzida para Tiroteio no Brasil, está na coletânea A Grande Caçada dos Tubarões – Histórias Estranhas de Um Tempo Estranho, que reúne diversas reportagens do repórter. “Eu acho que esse episódio ajudou para que ele tomasse a decisão meses depois de partir do Brasil, desde que aquilo representou a realidade caótica e violenta dos anos 60 na América Latina, se intrometendo no seu pequeno pedaço de paraíso. Mas isso é uma suposição minha, enfim”, conta Brian.

O jornalista lembra de outro ponto frequentado por Hunter na rua Mendonça, o Orgasmo Bar, próximo ao velho Domino. Sobre a redação do Brazil Herald, diz ter ouvido de outro ex-repórter da casa que o escritório era daqueles do tipo “cerveja na mesa”, e que Hunter escreveu certa vez que por causa do trânsito era impossível voltar para Copabanaca depois do trabalho, então não havia nada a fazer a não ser sentar e beber até o movimento ficar mais tranquilo. “Aquela turma de jornalistas frequentava botecos por ali, e eu sei de um em especial chamado Mr. Money, que agora virou parte de um shopping center. Eram grandes bebedores de cerveja, o Bone me contou. Mas tenho certeza que também tomavam caipirinha e sei que Hunter escreveu que sempre que podia, tomava uísque”. Quanto às drogas, elas ainda não tinham entrado na vida de Hunter. Para Brian, ele deve ter se envolvido com alguma coisa por ali, mas na verdade ela ainda olhava com certo receio para usuários de ilícitos.

Sobre as matérias, as pesquisas de Brian encontraram várias reportagens simples, relatos do noticiário político local, mas era possível ver lampejos do gonzo jornalismo que ele iria consagrar mais a frente, como por exemplo o fato de suavizar o ponto de vista dos personagens, usar descrições mais literárias e se alongar nas cenas, com diálogos longos.

“Uma coisa que me surpreendeu é que o perfil anti-imperialista dele aparece mais do que eu esperava. Thompson era um homem de esquerda, mas ao mesmo tempo uma pessoa bem pragmática e realista com política, além de admirador ferrenho de Kennedy. Em momentos de frustração, ele escrevia com certo desdém dos ‘mendigos sujos’, mas também tinha uma sensibilidade à frente de seu tempo para a marginalização das comunidades indígenas ou então para criticar a mentalidade conquistadora de multinacionais e ONGs, bem como das estruturas oligárquicas de poder.”

Para fechar, mais um texto do próprio Hunter, o trecho final de Cartas Tagarelas Durante uma Viagem de Aruba ao Rio, publicado no National Observer em 31 de dezembro de 1962 e na tradução de A Grande Caçada…:

“Agora já faz mais de uma semana que estou tentando enviar uma carta, mas estive atravessando a selva e o Mato Grosso, viajando por campos de petróleo e gastando meu dinheiro com antibióticos. Mas concluí que cada semana que passei nestes países é uma semana que não vou precisar passar na próxima vez que voltar. Um investimento, pode-se dizer, e agora que sobrevivi a esse tanto da história acho que eu ia querer me esganar se tivesse visto tudo isso superficialmente. Definitivamente pretendo me estabelecer por aqui – por um tempo, pelo menos. Já era hora de viver como um ser humano, pra variar”.

Ah, e se resta alguma dúvida sobre a intensidade das viagens de Hunter ainda nos tempos sudamericanos de sua vida de repórter louco, Brian sentencia: “tem uma passagem sobre paranoia e a atmosfera excêntrica de La Paz que soa como um aquecimento para Medo e Delírio em Las Vegas”. Cenário apropriado, imagino.

*publicado originalmente no jornal ocicero, em novembro de 2013

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