[por paulo silva junior]
O ASA de Arapiraca é a minha Inter de Limeira, ainda que eu pense que a pior coisa que pode acontecer na vida dum time grande é seca de títulos, mais do que rebaixamento pra Segunda Divisão, juro, então, eu acho que, digamos, pra efeito de torcedor da Sociedade Esportiva Palmeiras, é muito pior ter ficado 17 anos sem nenhum caneco e ter sofrido uma derrota numa final diante dum time do Interior no Morumbi lotado do que ser eliminado por uma equipe mais modesta, lá de longe, em casa, na Copa do Brasil.
O ASA de Arapiraca é, portanto, minha Inter de Limeira porque eu não tinha nem nascido na noite de 3 de setembro de 1986 enquanto era um adolescente de 13 anos em 20 de fevereiro de 2002; além de, claro, a eliminação pro ASA ser o símbolo de uma série de fiascos que viriam dali em diante – além de que ASA é um baita nome legal, fácil dos rivais lembrarem e que funciona em várias piadas toscas aqui e ali.
Enfim, o Palmeiras que na noite desta terça-feira enfrentou o ASA no Pacaembu deve muito essa situação ao time que enfrentou o ASA em 2002. Aquele, que herdava uma Era Parmalat de dois títulos do Campeonato Brasileiro (e um vice), uma Copa do Brasil (e um vice), uma Mercosul (e dois vices), três Campeonatos Paulistas (e dois vices) e uma Libertadores (e mais um vice), até fazia um começo de temporada decente: tinha vencido Santos, Flamengo e São Caetano, empatado com o Vasco e perdido pro Botafogo naquele início de Torneio Rio-SP quando caiu pro ASA em Arapiraca numa quarta-feira depois do Carnaval e com direito a uma certa polêmica pelo fato de alguns jogadores terem desfilado em escolas de samba e Luxemburgo ter admitido um treino leve, carnavalesco.
Vale lembrar que ASA x Palmeiras passou ao vivo na TV aberta, quarta à noite, e em 2002 isso fazia toda a diferença pro nível de provocação no dia seguinte na escola: lembram quando o jogo mais comentado era necessariamente o que passava depois da novela?
“Não sabemos muito sobre eles. Sabemos que Arapiraca é a terra do fumo. Tomara que a gente não leve fumo lá”, profetizou o preparador físico Valmir Cruz.
Enfim, o Palmeiras perdeu por 1 a 0, gol do atacante Sandro Goiano, que anda pelo Acre jogando no Plácido de Castro. No sábado, vitória sobre o Bangu em Moça Bonita, e na quarta o fatídico 20 de fevereiro. Eu lembro da estreia do zagueiro César, do Luxemburgo indo com três na linha defensiva – o novato, Galeano e Alexandre, pra poder liberar Arce e Adauto -, tinha Fernando, Magrão e Alex no meio, Christian e Itamar na frente. O goleiro era Marcos, que, sincero como sempre, disse na véspera que uma derrota marcaria esse time pra sempre.
O resultado já sabemos, Palmeiras abre o placar com Galeano, o mesmo Sandro Goiano empata, César faz o segundo, e o time cai fora pelo gol qualificado. Depois, vieram dois rebaixamentos e eliminações traumáticas pra Vitória (7 x 2 no Parque Antártica), Paulista de Jundiaí, Santo André, Ipatinga, outras tantas, anos difíceis. E eu não consigo desligar uma coisa de outra: a zica começou ali no ASA, sem dúvida, essa coisa toda de time se apequenando, de segunda divisão, de Guarani da Capital, de juntar com a Portuguesa, e tantas outras coisas que nos gritam começaram ali.
Nesta terça, noite de ir ao Pacaembu, foi para lembrar daquela marca triste de 11 anos atrás. E aqui segue um papo com Marcio Aversani, 40, maqueiro do Palmeiras na dolorida derrota contra o ASA de Arapiraca, jogo em que mais trabalhou na vida, que conta não só o que lembra daquela partida como também boas histórias dos tempos de gandula, de maca, de Palmeiras.

Márcio, você era gandula naquele Palmeiras x ASA de 2002. O que você lembra do jogo?
O Luxemburgo era o técnico, a gente estava meio assustado porque o Palmeiras não estava jogando bem e o time deles ia fazer uma cena lascada. Eu estava com uma lesão no ombro e foi terrível trabalhar neste dia, eles fizeram uma catimba imensa. Olha, eu estou na maca desde 1996 e foi o dia em que mais trabalhei.
O seu companheiro de trabalho, também maqueiro, Leonardo Brancaccio, falou em entrevista à Piauí que calcula uns 23 carretos…
É, deve ser mais ou menos isso, eu sai cansado, lembro que não era casado ainda, cheguei em casa e tive de fazer um chá pra tomar com Dorflex de tanta dor que eu estava. A gente entrava correndo, tirava o cara e nem dava tempo de chegar no banco que já estavam chamando de novo. Lembro que um repórter ainda falou pra gente: vocês hoje andaram mais quilômetros que os caras do Palmeiras. E quando o ASA fez o gol ficou ainda pior. Lembro que tinha um cara no final que já tinha caído umas sete vezes. Olha que eu sou calmo, mas não aguentei, falei pra ele que se ele caísse novo eu ia jogá-lo no fosso do Parque Antártica, que era suspenso. Ele não caiu mais.
E como começou essa coisa de trabalhar no Palmeiras?
Eu comecei como gandula no Palmeiras x Ceará de 1994, olha só [eliminação do Palmeiras, também de Luxemburgo, na Copa do Brasil, considerado o maior vexame da Era Parmalat até vir o ASA], eu na arquibancada, falta um rapaz e eu começo a trabalhar. Aí em 1996 eu começo a trabalhar de fato, em 1997 eu vou pra maca e estou até hoje, tomando conta dos gandulas, como funcionário do clube e trabalhando nas escolinhas de futebol, já que sou professor de educação física.
Muita gente questiona o trabalho dos gandulas… Diz que não é ético acelerar pro time da casa quando está perdendo ou atrasar a vida do time de fora pra irritar os jogadores.
A gente diz que nada mais é do que uma engrenagem do jogo. Eu sempre deixo claro pros meninos que, por mais que falam dos gandulas do Palmeiras na época do Felipão, não temos problema com Federação nem com ninguém. A gente vê muita confusão em outros lugares. Eu gosto do profissionalismo, um vacilo do gandula, uma briga com um jogador, pode prejudicar o clube. Então a gente não gosta que gandula peça camisa, nem que atormentem os jogadores, porque eles conhecem todos nós, trabalhamos há muito tempo, somos um grupo de 20 que estamos em 12 a cada jogo. Em contrapartida, nos tratam muito bem, me conhecem, acima de tudo, já que estou lá no Palmeiras. E reconhecem nosso trabalho, deram uma camisa personalizada pra cada menino no título da Copa do Brasil.
Além desse do ASA, que outros jogos te marcaram?
Tem a derrota pro Vitória por 7 a 2, esse aí não dá pra esquecer. Mas são muitas conquistas de campeonato, a gente no Morumbi trabalhando no Palmeiras x Corinthians que o Marcelinho perdeu o pênalti, o Palmeiras x Flamengo da Copa do Brasil [ 4 x 2 para o Palmeiras e classificação nos instantes finais em 1999 no Parque Antártica], a Copa do Brasil no ano passado, que o time não estava muito legal, mas venceu aos trancos e barrancos.
E nesses jogos grandes, como segurar a euforia dos gandulas?
A gente fala pra fazer o trabalho sério e, hoje em dia, qualquer coisa errada o quarto árbitro expulsa. Faz três, quatro anos que não temos um gandula expulso. Mas não vou ser hipócrita de falar que não se corre um pouco mais se o Palmeiras estiver precisando fazer um gol. Isso não é só aqui e tem de saber fazer. Eu não gosto de tomar bronca por nada, ainda mais no trabalho.
E com você, não se pega torcendo no meio do jogo?
No começo, quando entrei, era torcedor de arquibancada mesmo, mas agora fico tão ligado no trabalho dos meninos que parece que tem um escudo. Claro que fico nervoso em jogos decisivos, mas na hora da partida estou muito concentrado.
Algum jogador já deu trabalho? Como era lidar com algumas figuras conhecidas, sei lá, o Romário?
O Romário sempre foi muito gente boa, até quando ele se machucou na final do Rio-São Paulo foi legal, descemos com ele pro vestiário, ele cumprimentou a gente, agradeceu. Os caras assim são tranquilos, problema é time de longe que vem atrasar o jogo. Uma vez só teve uma confusão, foi naquele Palmeiras x Vasco na Libertadores de 1999 [1 x 1, e depois o Palmeiras venceu e se classificou em São Januário] quando a gente tirou o Donizete com rapidez e colocamos logo no chão depois que eles empataram, aí ele e o Antônio Lopes discutiram com a gente e ficou marcado. Mas depois ele até veio jogar no Palmeiras e brincou com a gente, lembrou da história.
*Publicado originalmente no saudoso Impedimento em setembro de 2013