É proibido vaiar

[por paulo silva junior]

A linda moça agoniza diante dos lances viris e torce fervorosamente as luvas no estádio do Velódromo, palco da primeira decisão de Campeonato Paulista de Futebol e que foi marcada para 26 de outubro de 1902, quando o São Paulo Athletic Club venceu o Paulistano por dois a um, ambos os gols de Charles Miller, principal personagem, artilheiro e árbitro do torneio. Mas nem o esforço para ser campeão estadual batendo um time de brasileiros – imagine um atacante de nome Blacklock, que só posso ver como um ligeiro ponta insinuante, partindo pra cima de Guilherme Rubião, alcunha de zagueiro-zagueiro, óbvio – foi o suficiente para tornar os ingleses conhecidos o bastante pelas ruas. Em junho do ano seguinte, quando um meio-campista do SPAC passava pela Praça do Rosário, atual Antônio Prado, rumo ao mesmo campo em que havia levantado o caneco um ano antes, um policial não o deixou nem chegar ao Viaduto do Chá, muito menos ao palco que virou Praça Roosevelt; andando já com o fardamento do jogo, o britânico foi detido por circular com trajes carnavalescos, não apropriados, fora de época, com a ofensiva ousadia de deixar as pernas à mostra em pleno centro de São Paulo. Atrasado, o médio foi procurado por dirigentes não só do SPAC, mas também do rival daquela quarta-feira Paulistano, e acabou encontrado na delegacia central, atrás das grades, de botas amarradas para o prélio, aliás. Aí sim se fez valer da fama: liberem o nosso centre-half, o match já está atrasado! O Paulistano venceu a revanche, diante dum meia preso por meia-hora, por dois a zero.

Tommaso Bezzi nasceu em Turim pra se tornar o engenheiro e arquiteto ítalo-brasileiro responsável por projetar o Museu do Ipiranga e também dar uns tapas na Praça da República. Mas numa noite como tantas outras – vinho e divagações sobre a sociedade moderna com o alto escalão da política nacional – ele acabou convidado pela família Prado pra ser o homem por trás do Velódromo que iria beirar a Consolação: ideia de Antonio Prado, conselheiro que viraria nome de praça já citada, do filho dele, Antonio Prado Junior, que acabara de voltar de Paris, e de Dona Veridiana, mãe de Antonio, avó de Junior e dona da grana. Foi ela, empolgada com os passeios de bicicleta nos finas de tarde do Campos Elísios (e você aí pedindo ciclovias pela cidade, ora!), que bancou a construção de uma pista de corrida pra duas rodas.

Mas relembremos a noite de sexta-feira, 30 de novembro de 1900. Realiza-se hoje, às 7 horas da tarde, no salão da Rotisserie Sportsman, uma reunião de distintos moços de nossa sociedade, com o fim de tratar da fundação de um Club Athletico, escreveu o Correio Paulistano, nome homônimo do time que nasceria dali a pouco, na Rua São Bento, número 59, horas depois da meningite matar Oscar Wilde. E onde se juntam o Velódromo, mais importante praça de esportes da capital naquela virada para o século XX, e o Paulistano? É que entre as cabeças do clube que representaria a elite do esporte na cidade estava exatamente Antonio Prado Junior. E não demorou muito pra ele pedir um favor à vovó: empresta a pista de ciclismo pra gente fazer um campo de futebol? Assim o Veloce Club Olimpic Paulista, situado entre as ruas Olinda e Martinho Prado, foi alugado por 250 mil réis por mês pra ser o ground do novo clube, mas acabou sendo palco do tricampeonato do grande adversário, o time dos ingleses do SPAC, vitoriosos nas ligas disputadas em 1902-03-04.

“Vocês ficariam espantados ao saber como o football é popular por aqui”, o Charles Miller escreveu, à Inglaterra, em 1904, enquanto uma placa no Velódromo dizia que é proibido vaiar e as moças seguiam torcendo, torcendo as luvas, nervosas. Exatamente o Velódromo, enquanto principal estádio da cidade de São Paulo, é que acabou há exatos cem anos sendo o protagonista de uma ruptura e é essa história, passada em 13 de abril de 1913, que começou a mudar a cara do futebol local. Que fez do centro uma memória fúnebre pré-profissionalismo.

Divisão do futebol paulistano
Cinco clubes fundaram e participaram do primeiro Campeonato Paulista em 1902 sendo que o primeiro a ser criado oficialmente foi o São Paulo Athletic Club, o SPAC, de base inglesa, que saiu ao meio-dia numa boa mesa de bar na Rua São Bento onde engenheiros da São Paulo Railway enchiam a cara de gin tonic e decidiam que precisavam de clube para sair jogando críquete e matando a saudade da ilha. Ao mesmo tempo, naquele 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinava a lei Áurea num feriado declarado por Dom Pedro II. Mas e o começo do SPAC? Uma bola pesada rolando pra lá e pra cá na Chácara Dulley, no Bom Retiro, onde hoje estão Oficina Cultural Oswald de Andrade e Colégio Santa Inês. O maior nome foi, é e sempre será ele, Charles William Miller, o homem por trás da praça em frente ao estádio municipal e que vale um par de parágrafos mais à frente.

Depois vem o Mackenzie, em 1898, e eu fico imaginando uns estudantes de moletom azul-marinho com aquele bai-ta eme vermelho bordado com capricho pelas mais caprichosas costureiras do lado de cá do Anhangabaú loucos pra jogar bola, e é isso, é por isso que é considerado o primeiro time criado para jogadores essencialmente brasileiros, no caso alunos da escola que até hoje está ali, naquele pedaço de começo de Consolação pra quem sobe pros Jardins desde sempre. Teve entre os fundadores aquele rapaz que virou sinônimo de jogador leal e é até nome de prêmio pra defensor que não comete faltas, Belford Duarte, maranhense, que depois viria a fundar o querido América do Rio de Janeiro.

Em 1899, dois clubes surgiram num espaço de vinte dias: em 19 de agosto, na casa de Leopoldo Vila Real, Rua Senador Queiroz, 5, esquina com Augusta de Queiroz, vem o Internacional, fruto de uma união de europeus e que logo assume a Chácara Dulley deixada pelo Paulistano. Mas Hans Nobiling, um alemão de Hamburgo, não gostou nada daquilo. Na votação pelo nome do time, ele escolheu Germânia, até teve um ou outro parceiro na empreitada – afinal, já era dono de um time amador apelidado de Hans Nobiling Team, ou vamos jogar contra o time do Hans -, mas viu o Internacional vencer. Não faz mal, pensou, e já marcou uma reunião pra 7 de setembro, Rua da Mooca, 115, casa de Rudolf Wahnschaff, para agora sim sair o clube genuinamente alemão, Sport Club Germânia, prazer, também tenho um time, bravou, escalado como titular para o primeiro jogo do campeonato inaugural, uma derrota por dois a um para o Mackenzie. O quinto e último fundador do Paulistão é o Paulistano, cuja história já foi narrada e voltará à tona quando o ano for 1925 e o lugar, a Europa. Enfim, voltemos a 13 de abril de 1913, a história da divisão do futebol paulista, um campeonato que começou com oito times, sendo um deles o Americano, fundado em Santos dez anos antes, debutante em 1907 e campeão paulista de 1912 após uma decisão polêmica: contratou dois uruguaios, isso mesmo, con-tra-tou dois jogadores, os irmãos Antonio e Juan Bertone, que bons que eram comandaram o time até um título invicto e uma movimentação de bastidores. Aquilo configurava, oras, o primeiro passo da profissionalização do futebol, ainda que jogadores não eram considerados assim oficialmente. Apesar disso ter sido um fator importante para o início da decadência, ou melhor, decadência nem tanto, indaga o leitor mais crítico, escolha, vai, escolha do futebol do centro sem ambição de se tornar profissional e que vai aos poucos deixando as cabeças, enfim, apesar disso tudo, o que moveu a divisão do campeonato, a fundação da Associação Paulista de Esportes Atléticos, a Apea, e a consequente briga de cachorro grande pelo protagonismo no esporte local foi: uma briga simbólica por um mando de campo controverso.

Domingo de sol na Pauliceia, 13 de abril de 1913, e o Paulistano esperava atuar em casa, no Velódromo, com o combinado de receber 200 mil réis por aluguel pago pela liga para cada jogo disputado no estádio; já o Germânia ofereceu o Parque Antártica pelos mesmos 200 mil réis, mas por mês, o que agradou a liga, nem boba nem nada. Na hora marcada para Paulistano x Americano, cada time no gramado de cada campo e nada de jogo, num W.O. que a liga decidiu por vitória do time dos uruguaios, que levou os pontos e revoltou o Paulistano. O tradicional clube então fundou uma liga paralela, elitista, longe dos times populares, e usou do prestígio para trazer a companhia de Mackenzie e AA das Palmeiras. Achamos muito justos que os operários, os humildes, participem das refregas, mas os operários e os humildes que compreendam os seus deveres de sportsman, colocou o cronista do Estadão Antonio Figueiredo, se referindo a Ypiranga, que entrara na disputa em 1910, e Corinthians, em 1913. No campeonato da Apea, dos ricos, e do presidente Antonio Prado Junior, o neto da Veridiana e amante das bicicletas, deu Paulistano; na corrida dos pobres rumo à taça, o Americano remou sozinho e bateu Ypiranga, Corinthians, Internacional e Germânia – a partida decisiva foi no Parque Antártica, claro. O campeonato da elite durou quatro temporadas e sempre contou com os membros fundadores Paulistano e Mackenzie, ambos, inclusive, faziam o grande dérbi do centro de São Paulo na época, no Velódromo, pra delírio das torcidas que já não mais só torciam as luvas:

Aleguá, guá, guá Aleguá, guá, guá Hurra, hurra, hurra Paulistano! Aqui se vê Aqui se vê A.A.M.C. Mackenzie!

E o Velódromo nasceu pra morrer em 1915, quando a Prefeitura disse que a modernização clamava pela Rua Nestor Pestana, vizinha da atual Praça Roosevelt (modernização? Qualquer semelhança não é mera coincidência: vivemos tempos parecidos, diga-se). Como bem descreve Rubens Ribeiro, autor de “O Caminho da Bola, 100 Anos de História da Federação Paulista de Futebol”, quando diz que o surto de progresso que se manifestava na capital paulista começava a devorar suas primeiras grandes áreas centrais para finais urbanísticos, sendo que na avalanche de desapropriações que se seguiu, o Velódromo Paulista foi atingido, e o progresso apagava dos anais da história esportiva de São Paulo uma página gloriosa. E aqui vai um trecho que vale aspas: “O Velódromo deixava de ser o palco das grandes pugnas do futebol, das inesquecíveis conquistas, das tardes de gala, nas quais se fazia presente o fino da sociedade paulistana”. Sem lenço e sem documento, a Apea conseguiu um acordo com a Prefeitura pra ao menos levar as arquibancadas do Velódromo para o Campo da Floresta, da AA das Palmeiras.

ilustra_vaiar
(ilustração: Heloísa Fleming)

O fim, parte I: os ingleses
Foi na quase esquina com a Rangel Pestana, bairro do Brás, que nasceu o menino Charles, Rua Monsenhor de Andrade, número 24, dia também 24, em novembro de 1874, filho do escocês John Miller e da brasileira Carlota Alexandrina Fox Miller.

Mas a insistência do pai fez com que o pequeno Charles fosse estudar lá fora – veja só, mandaram o garoto prum intercâmbio com nem dez anos de idade. Lá aprendeu a jogar futebol, não só jogar como pegar gosto de fato por aquele esporte em Southampon. Quando retornou da Banister Court School, em 1894, já havia São Paulo Railway, onde Charles arrumou um trabalho no almoxarifado, e Viaduto do Chá. Mas que tem o viaduto com um moleque que volta da Inglaterra? Deixemos com Rubens Ribeiro: Se não houvesse ligação com os dois lados do Vale do Anhangabaú, explica Rubens, aqueles jovens teriam de fazer dura caminhada, alguns teriam de sair da Praça dos Curros (hoje República), passar pelo Rua do Paredão (Xavier de Toledo), descer a ladeira dos Piques (largo da Memória), atravessar a ponte dos Piques e subir a cansativa ladeira de Santo Antônio (atual dr. Falcão) para chegar do outro lado e seguir, finalmente, rumo à Várzea do Carmo, ufa. A tal Várzea do Carmo ficava a nem um quilômetro da casa dos avós de Charles, onde ele nasceu, uma várzea mais exatamente entre a Gasômetro e a Santa Rosa, o bastante para que Charles, numa bagagem com duas bolas usadas, uma bomba e um livro de regras, passasse a falar do jogo pela cidade. Um ou outro funcionário foi se empolgando, imagine só, ouvir aquele jovem de uns vinte anos encher o saco sobre detalhes e definições até então desconhecidas sobre o fato de se dividir dois times e chutar uma bola até um retângulo lá do outro lado. E Charles começou a juntar um pessoal da SPR, outro da São Paulo Gas Company, mais uns caras da London Bank para bater uma bola nela, a Várzea do Carmo. E lá ele organizou o primeiro jogo de futebol brasileiro que muitos – a maioria, imagino – considera, com as regras trazidas por ele e uma vitória de quatro a dois da São Paulo Railway, do dono da bola, sobre a empresa de gás. O próprio Charles Miller, anos depois, descreveu ao jornal Gazeta Esportiva, isso já 1942.

“Logo que nos sentimos mais traquejados e que o número de praticantes do jogo havia crescido convocquei a turma para o primeiro cotejo regulamentar: The Team do Gaz contra o SP Railway. Ao chegar ao campo, a primeira tarefa que realizamos foi enxotar do mesmo os animais da C. Viação que ali pastavam, e logo depois iniciávamos nosso jogo, que transcorreu interessante, sendo que alguns dos companheiros jogaram mesmo de calças, por falta de uniforme adequado. Quando deixamos o campo já estava assumido o compromisso de promovermos um segundo jogo, sendo que a exclamação geral foi esta, que ótimo esporte, que joguinho bom!” E foi quando o SPAC passou a aceitar o futebol no clube que Charles Miller passou a dar os treinos na já citada Dulley, Bom Retiro, onde ele foi se tornando o principal jogador daquele começo de século, importador das regras, campeão, artilheiro e ainda árbitro do Paulistão de 1902. Em 1910, ele se aposenta com três títulos e dois troféus de melhor goleador do Estadual após um amistoso com o Corinthians da Inglaterra que fez uma excursão ao Brasil e bateu não só o SPAC por oito a dois, como também passou fácil por Fluminense e seleção brasileira – com estrangeiros – Palmeiras e ainda um combinado paulista. Se as histórias de São Paulo Athletic e Miller se confundem, fica ainda mais fácil ligar as datas quando o time da Visconde de Ouro Preto, travessa da Consolação, joga o último campeonato em 1912 por pregar o amadorismo e não concordar com os rumos do futebol. O SPAC, do futebol, mas também do rugbi, do hóquei sobre grama e até do badminton, segue firme e forte na mesma sede central – onde está inclusive um memorial com conquistas e muito, muito de Charles Miller – e também uma sede de campo à beira da represa Guarapiranga, em Socorro, onde os sócios jogam boas peladas. Fez 93 jogos na história do Campeonato Paulista, com 43 vitórias e quatro títulos.

O fim, parte II: sem bengalas
Nos anos 1920, o futebol ia começando a ter alguns elementos que conhecemos bem hoje, tanto que uma das decisões emblemáticas da Associação Paulista de Esportes Atléticos, a Apea, foi de proibir a entrada de torcedores com bengalas nos jogos do campeonato, visto que o instrumento poderia trazer risco aos presentes em caso de briga generalizada. Isso foi em 1926, e três anos antes já havia sido solicitada uma reunião com o secretário da Justiça para se tratar do mesmo tema: um plano de combate contra os arruaceiros dos campos de futebol na cidade.

E 1923 foi também o primeiro campeonato sem outro dos clubes fundadores, o Mackenzie, com um fim de história que já se desenhava havia alguns anos – disputou as temporadas de 1920-21-22 como Mack-Port, quando em 1923 a Portuguesa, então parceira, conseguiu finalmente convencer a universidade do centro a ceder à vaga ao clube da colônia europeia. No fim das contas, disseram pessoas do Mackenzie, a ideia era largar o futebol naquele tempo de início de profissionalismo. Fez 137 jogos na história, com só 44 vitórias e nenhum título conquistado. No mesmo ano de 1922, despedida do Mackenzie, o Paulistano inaugurava uma nova sede no Jardim América, perto do campo. Em 1925 teve uma das duas passagens mais relevantes da história do clube: primeiro, com 11 títulos, é o único tetracampeão (consecutivo) paulista da história, 1916-17-18-19; segundo, fez uma marcante excursão à Europa onde fez 10 jogos, venceu 9, e foi ovacionado na volta ao Brasil. Olha ele aqui de novo, Antonio Prado Junior, desta vez, já como deputado, o grande idealizador de uma viagem dum time brasileiro num país que começara a viver a crise do café pra um continente que se reconstruía depois da I Grande Guerra Mundial.

Junior voltou mais do que entusiasmado de Paris: se preparem que a comitiva vai subir no Zeelândia, disse, se referindo a um navio. Pra reforçar o time e refazer um elenco com vários desfalques, o Paulistano convidou Durval Junqueira Machado e J. Seabra, do Flamengo, e Araken Patuska, do Santos, sendo que esse último não só jogou e marcou gols como ainda escreveu um livro sobre a epopeia, o clássico Os Reis do Futebol, nome que foi colocado pela imprensa de Paris que se rendeu ao time que venceu uma seleção francesa por sete a dois logo na estreia, na primeira da dezena de partidas em terras estrangeiras. Foi um baita passeio, que terminou com um seis a zero em Lisboa e contou com um total de onze gols de Friedenreich, que jogou todos os dez jogos em cerca de quartenta dias. E o time ainda se diz roubado, como escreveu Patuska sobre a derrota mínima para o Cette. O árbitro, Sr. Broghamer, teve uma péssima atuação na partida, desse modo, jogamos contra doze pessoas, sendo de notar que durante alguns minutos o nosso quadro esteve reduzido a dez homens, pois, Mario, seriamente machucado num pé, teve de se retirar de campo, reclamou o jogador-escritor, antes de dizer que o Paulistano foi derrotado numa cidadezinha do Mediterrâneo, sem grande importância, num jogo que pela renda nem lhe compensou os prejuízos financeiros da viagem de dois mil quilômetros ida e volta. “Naturalmente, o recozijo da população foi imenso”, destaca. No ano seguinte, em 1926, o Paulistano novamente fundou a própria liga, desta vez a Liga de Amadores de Futebol, LAF, vencida por ele próprio e que contou com oito times. Venceu também em 1928 e perdeu a final de 1929 para o Internacional – neste ano, ficou forte o rumor de que o Paulistano era beneficiado pelos árbitros, já que a AA das Palmeiras foi expulsa da competição de- pois de uma briga diante do Paulistano que o craque Friedenreich teria começado. Mas o time da elite paulistana ainda foi cordial após o vice: encontrou os campe- ões pra um brinde num boteco no centrão. Em 1929, o Paulistano desistiu do time, como conta a ata anual 1930-31 que pude ler no memorial do clube, no Jardim Europa, e aqui valem aspas e reprodução fiel, tamanha a formalidade do documento:

“Com pesar, tivemos que extinguir, em 1930, a secção de futebol do nosso club, pois, foi neste esporte que o Paulistano iniciou a conquista dos seus asssignalados triumphos e logrou atrair para o meio esportivo nacional a admiriação daqueles que, até então, ignoravam o que no Brasil, já se fazia em pról da educação physica. Infelizmente, esta secção deixou de correspon- der aos propósitos que animam o desenvolvimento dos diversos esportes cultivados por esse club (…) O último embate em que se empenhou foi contra a turma do Antártica FC. O nosso quadro venceu-o galhardamente pela contagem de 6 pontos a 1, em 15 de dezembro de 1929, terminando, assim, a série de partidas que disputou”. Foram 336 jogos e 220 vitórias.

O fim, parte III: anos 1930
Nos anos 1930, os campeões paulistas já passaram a ser basicamente os times que disputam os títulos até hoje e o campeonato de 1932, mais precisamente, marca o último ano em que Germânia e Internacional, fundados praticamente juntos, jogam o Estadual. Isso porque 1933 será para sempre lembrado como o primeiro torneio do futebol profissional paulista, título do Palestra Itália e oito times na disputa. O Germânia, campeão em 1906 e 15, foi a campo 315 vezes e venceu 98 até virar o hoje conhecido clube Pinheiros, no Jardim Europa. Já o Internacional, dono das taças de 1907 e 28, jogou 354, ganhou 111 e foi se juntar ao Antártica para dar origem ao Paulista, que depois foi incorporado pelo São Paulo Futebol Clube.

Bola, cadê?
Apesar do riquíssimo futebol de várzea da cidade de São Paulo e de uma distribuição plural de seus campos e jogadores, pra não falar do fluxo migratório das tardes de sábado e manhãs de domingo entre craques e bagres de toda a região metropolitana, falemos especialmente do futebol principal, profissional, de elite, aquele com os times que as pessoas torcem, digamos, oficial e formalmente.

O último DNA Paulistano do instituto Datafolha mostra o que já é claro aos olhos de quem anda por aí: dos dez bairros considerados centrais pela pesquisa – imagine República e Sé por dentro e uma cruz com Bom Retiro no norte, Liberdade no sul, Brás no leste e Consolação no oeste – o Corinthians é o que tem mais torcedores em todos eles, em taxas que variam de 24% a 41% da população, sempre seguido por São Paulo e Palmeiras, às vezes de perto, às vezes à distância. Reflexo, portanto, de uma cidade diferente do turbilhão vivido a cada final de semana por Londres ou Buenos Aires, por exemplo, onde pipocam clássicos nas mais diversas divisões a cada bairro que você passa. Aqui, sobraram seis, encabeçados pelo trio de ferro, com a Portuguesa abaixo, o Juventus como ponto fora da curva e o Nacional numa penumbra cada vez mais escura. A aberração Audax eu me recuso a contar, e ainda assim seria muito pouco. Pouco pra quem tem marcos tão relevantes que até viraram projeto de lei de resgate da memória do futebol – foram pontuados a antiga Várzea do Carmo, a Rua Três Rios (área do Colégio Santa Inês, local do primeiro campo exclusivo para futebol), o SPAC, o antigo Velódromo e o Museu do Futebol – e ainda convive com um centro que passa por tantos domingos às moscas, sem futebol. Pra quando o vendedor de mexirica da Ipiranga falar que não vai ao jogo porque perdeu a venda de ingressos pela internet e nem tem cartão de crédito, lembrar que a maior da finais acontecia ali, bem perto, atravessando a rua. E pensar que nem se podia vaiar.

*publicada originalmente no jornal ocicero, em julho de 2013

Deixe um comentário