[por paulo silva junior]
Chegou minha vez. Ele perguntou quem era o batedor e eu, tímido, levantei o braço me identificando. Tentei encará-lo fixamente para confundi-lo. Tentei rapidamente lembrar a especialidade do gigante caipira, mas ele já pegou do lado de cá, de lá, no chão, no alto. Pensei em me inspirar em Evair, talvez Djalminha. Em vão. Eu era só um menino de 12 anos cagando nas calças na hora do toss do Edilson Pereira de Carvalho. Até pude ouvir o José Silvério soltando o ‘Ele bate muuuuito bem’. No gol, Marcos. Na marca da cal todos nós: eu, meu pai, o Fabinho, o Leandro. E meu chute que explodiu nas mãos daquele monstro torto que de tão humano soa irreal. Eu já fiz um gol ou outro por aí, mas tive, sim, a chance de marcar em Marcos Roberto Silveira Reis. E perdi.*
Eu sempre achei um barato essa história da escola de goleiros. Imagina só: o time que eu torço é o melhor dessa coisa toda na arte de fazer com que o pior cara com os pés vire o melhor com as mãos. É mais ou menos isso: somos especialistas em criar um cara que só serve pra jogar em uma posição entre as vinte, vinte e poucas possíveis dentro dum campo. Friamente específico, clínico.
E eu sempre achei também que seria o máximo ver o Palmeiras um dia caindo para a quarta divisão revezando seus goleiros formados nos campinhos da Marquês de São Vicente e se recusando a abrir mão desse trunfo histórico, a nobre arte de ter um menino palmeirense com a missão de salvar a meta, a nossa meta. Ora, tem alguma posição que precisa mais de um torcedor do que essa?
E isso foi sendo uma obsessão fanática. Todo 1º de abril eu ia contando os aniversários da estreia do Gato Fernández, que no dia da mentira de 1994 saiu jogando contra o Guarani numa noite de Campeonato Paulista. De lá, ele seguiu titular até o Velloso voltar no Brasileiro, o suficiente para ser o último goleiro contratado neste tempo todo e nosso arqueiro no pôster do bicampeonato estadual, aquele 1 a 0 no Santo André do Jair Picerni, jogando no Bruno José Daniel, gol do Evair. “Quando o Gato Fernández chegou, eu não desanimei. É normal que a diretoria ache que em determinado momento é hora de trazer um goleiro mais experiente. Segui trabalhando e deu certo, depois tive novas chances de jogar”, me contou esses dias o Sérgio, que com 23 anos foi sacado pelo Vanderlei, dez meses depois de ser o guarda-redes do fim da fila.
E daí veio o Marcos, jogou o Gilvan, o Fernando, o Igor, o Marcelo, chegou a vez do Diego Cavalieri, do Deola, do Bruno, do Alemão. E chegou o dia que meu 1º de abril do Gato Fernández acabou, mais precisamente terça passada, um 11 de dezembro sem Marcos, um 11 de dezembro de Fernando Prass.
“Já era esperado. É normal que a diretoria queira alguém mais experiente prum torneio tão importante”, me falou o Velloso, logo ele, que quando machucado deu lugar a Marcos ainda na primeira fase da Libertadores 99 e viu o reserva de 24 anos entrar numa fogueira e sair fechando gol igual um louco contra o maior rival.
Mas fato é que parou o Marcos.
– Cheguei lá na Inglaterra, o preparador do Arsenal me mostrou um aparelho com umas luzes pra treinar o reflexo. Eu pensei comigo: ‘Não vou ficar fazendo isso nem a pau’.
– Mas o Seaman treina com isso, é ótimo.
– Por isso ele é um frangueiro!
Mas fato é que parou o Marcos.
– Ensinar zagueiro a se posicionar eu posso, mas ensinar homem a jogar futebol, não dá. (Depois de um Palmeiras 2 x 4 União Barbarense em 2003.)
E parou o Marcos.
– No fundo, minha carreira no Palmeiras você resume assim: pênalti do Vampeta, pênalti do Marcelinho; furada do Vitória, falha do Manchester.
Mas culpa nenhuma tem o Prass, e lá fomos nós à sala de imprensa da Academia ver um goleiro, veja só, um goleiro aparecer 18 anos de dias da mentira depois. Não sei o resto, mas eu só conseguia pensar nisso: “Um goleiro, um goleiro contratado pelo Palmeiras, como isso não soa tão estranho pra todo mundo, olha essa frase, Pal-mei-ras-a-pre-sen-ta-go-lei-ro, não é possível, não é”.
O Fernández chegou fazendo 40 anos e jogou só 35 vezes. Desejo sorte maior ao Prass, 34, gente boa o gaúcho. O Edmundo, que um dia também veio do Vasco, me disse que gostou da ideia. O Marcos também falou que o cara é bom. E ele chegou dizendo que o auge está por vir, que sente só as coisas boas da experiência, que um goleiro é muito mais cabeça do que corpo, e que está animado para aprender coisas novas. Aprender? Vá à escola de goleiros, Prass. E depois me diz se eu começo a contar aniversários em 11 de dezembro ou não.
*O parágrafo que abre o texto narra um episódio de duas semanas atrás, na Academia de Futebol. Na última entrevista antes do jogo de despedida, Marcos chamou umas crianças para cobrar pênaltis nele. Viu os jornalistas curiosos e convidou um ou outro para bater também. Quando viu, havia uma fila de repórteres, câmeras, assistentes, fotógrafos, todo mundo. Ele deu atenção, brincou e, sim, tentou pegar os pênaltis de um por um. O meu ele buscou, fácil. E depois ainda provocou: ‘Tá pensando no pênalti, né? Imagina quem erra na Libertadores!’. Imagino, sim.
*Publicado originalmente no saudoso Impedimento em dezembro de 2012