Nada é mais vazio

[por paulo silva junior]

Antes dos times entrarem em campo eu fiquei de olho no batalhão de fotógrafos que se aglomeravam pela melhor pose do campeão brasileiro. Mas o Fluminense entrou num estádio que não era nem dele nem do outro, não foi aplaudido nem vaiado, e todo o clima de não-final começou com onze caras que de enfileirados para o hino nacional trocaram a eternidade de um pôster por corridinhas laterais sem graça nem direção. Aos homens do retrato, restou guardar a muito útil foto do trio de arbitragem agora formado por cinco caras com roupa de juiz e um de terno. E a ausência do jornal da manhã.

Nada é mais vazio que um estádio vazio, disseram um dia. E o que pode ser mais vazio que um estádio vazio em dia de título? Oito mil pagantes. Fomos pesquisar. É menos da metade do Anacletazzo de 2001. É mínimo. Eu diria que uma pessoa a menos e toda aquela tarde de calor e ausência de brisa na infernal Presidente Prudente teria sido um jogo acusado de falta de testemunhas. Oito mil pagantes. Inconformado.

Descemos pra grade ali pelos 40 do segundo tempo pensando em já preparar a entrada nos vestiários e a cobertura do quase campeão, do quase rebaixado. E numa visão meio geral do Maracanã, meio Canal 100 o Jean cruzou pro Fred fazer um gol que entraria pra história. Ou deveria.

“Parece que agora são campeões”, soprou um senhor na primeira fila. Mas o jogo acabou e nem eles sabiam direito o que eram. Saberiam o que estavam fazendo ali? Apito final e nenhum abraço emocionado, nenhuma camisa atirada pra torcida. “Mas o outro jogo já terminou”, alguém falou do lado, e nada, nada.

Passaram-se uns segundos intermináveis e começaram a correr os tricolores – que, adivinhem, ganharam o campeonato que consolida o maior momento da história do clube e mal usaram o uniforme que faz jus ao apelido. Aproveitem e avisem o Nelson Rodrigues que o Flu também não passa de um time de três cores.

Mas correm com certo constrangimento. “Foi pra respeitar o rival”, alguém foi dizer, mas respeitar o quê? Cara-pálida, você não é campeão do Brasil?

A torcida começa a cantar o nome do presidente. O diretor de futebol, animadíssimo, dá tanta importância pro título que só fala na Libertadore$ do ano que vem. A imprensa não pode entrar no campo, reservado às rádios e à TV oficial do campeonato.

Ninguém chora. Muito menos alguém atravessa o campo de joelhos. O pódio esqueceram. As medalhas o cachorro comeu. O troféu não ficou pronto. Os fogos devem ter falhado. A volta olímpica parece que marcaram pra outro lugar. E os gritos de ‘é, campeão’ devem ter saído de moda.

Vai ver o Ministério da Saúde aprovou. Curioso, mas parece que nenhum infarto foi registrado em toda Guanabara.

*Publicado originalmente no saudoso Impedimento em novembro de 2012

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